Vladimir Korolenko – O Músico Cego

Por Caio Lima

A literatura russa é uma das três escolas literárias que mais admiro. Um monte de gente fala um monte de coisas sobre os russos: pais da psicologia, obras profundas, reis dos calhamaços, Editora 34 e essas coisas. Para mim, todo o movimento literário russo reside num pilar principal: resistência. Essa palavrinha (que cai como uma luva nos dias de hoje) se faz presente de forma muito íntima em todos os grandes autores russos. O interessante é em como eles aplicam sua forma de resistência, manipulando a escrita através de retratos da sociedade. Esses retratos são tão vívidos que até em contos fantásticos fica bastante evidente o teor crítico.

“O Músico Cego” é a obra máxima de Korolenko e conta a vida de Piótr, um menino cego desde o nascimento, de uma família consideravelmente abastada e que, além de bastante inteligente, possuía habilidade incomum para a música. Em contrapartida, a cegueira lhe era um pesadelo e, desde o nascimento, uma barreira para conseguir ir além ou ter uma vida comum, segundo suas próprias limitações de entendimento acerca do que poderia ser e fazer de sua própria vida. Esse é, de forma resumida, o enredo da história. Parece simples (e bastante tedioso) discorrer sobre a vida de um cego, mas não é bem assim. Korolenko era ferrenho defensor dos direitos humanos e dos marginais numa Rússia czarista e isso diz bastante coisa, mas vamos por partes.

A primeira coisa se chama higienização social. Sim, é um termo forte. Muito forte. Mas é o que rola em governos reacionários e que privilegiam uma certa casta. Qualquer coisa que fuja um padrão estético e comportamental é, naturalmente, deixada de lado pela sociedade. Korolenko usa isso com a cegueira de Piótr que, apesar de viver numa família com condições, não possui crédito suficiente em suas habilidades. Sua cegueira é motivo suficiente para que deem ao nosso pequeno uma vida isolada. Há um afastamento natural até daqueles cuja inocência não ousamos duvidar, as próprias crianças que residem ali por perto.

A solidão dos socialmente excluídos é passada de forma muito bonita (bem escrita) por Korolenko, mas é inevitável sentir como se fosse próprio da gente a relação endurecida de Piótr com a cegueira, como se fosse uma profunda cova, e a aceitação dessa condição como definitiva em diversas partes do livro. Mesmo em condições financeiras, sua deficiência o anula. Ele sente que é e acaba por se tornar um peso à todos que o cercam. Essa devoção pela sua falta de serventia ao mundo o proporciona uma visão minúscula de si mesmo e a sensação de vergonha por ser cego age sobre Piótr como um rolo compressor, mas não é capaz de colocar freios em seu desenvolvimento a partir da arte.

Piótr sonha constantemente, mas, por não possuir visão, não é capaz de dar vida ao que sonhou. É um processo duro demais para uma criança/adolescente se dar conta de que não consegue materializar talvez a alegria mais básica que possuímos. Isso o faz atingir níveis incompreensíveis de sua exclusão do mundo por conta da cegueira. Ainda mais quando numa igreja, outro padre, também cego de nascença e totalmente amargurado, trata de um noviço que ainda é capaz de sonhar com a mãe, pois só perdeu a visão aos sete anos. Se nem capaz de sonhar ele poderia ser, não há medida para sua inutilidade.

Evelina foi a única, fora a família, que criou laços verdadeiros com Piótr. Admirou sua música, aprendeu com suas sensações e o fez sentir parte de algo maior do que sua limitação o impedia de enxergar, literalmente. Evelina representa um outro ponto deixado de lado por sociedades reacionárias padrão: a mulher. Dentro de uma sociedade que exigia da mulher a condição de dona de casa e mãe de família, onde montar uma lista de compras e calcular despesas básicas era ensinamento mais que suficiente e a subserviência ao homem da casa, Evelina é a representação de um desafio aos padrões tão grande ou maior que Piótr. A partir da insistência dela nessa relação com Piótr que nosso protagonista passa a ter um desenvolvimento cada vez mais amplo. Mas Evelina é mais do que uma parte importante da história de Piótr, ela tem seus próprios sonhos e ambições e é uma mulher transgressora.

A estabilidade de estar num círculo onde você é aceito e a percepção de que esse círculo é minúsculo. Perceber que sua cegueira não o limita de realizar coisas extraordinárias e sentir que outros iguais não tem a mesma oportunidade que você e vivem na amargura, fazendo das suas vidas penitência. Isso leva Piótr a quase entregar os pontos de vez. Isso só não acontece porque Máksim, seu tio aleijado, portanto inútil para a sociedade, resolve mostra-lo a vida como ela é e o apresenta aos cegos mendicantes do mundo real, excluídos da sociedade e que sobrevivem através de migalhas. O canto desses mendigos sustenta a moral de quem sobrevive ante uma sociedade que não os ouve.

Máksim, fã máximo de Garibaldi, foi aleijado em combate e considerado inútil pela sociedade após sacrificar o próprio corpo. Com Piótr a rotina da casa se modificou e ele foi o primeiro a atentar para seu talento com a música, além de ser um grande e severo explicador. Foi o único, durante muito tempo, a acreditar que Piótr poderia sim constituir parte da sociedade sem qualquer tipo de restrição. Através do desenvolvimento da arte, Máksim apresenta a seu sobrinho um mundo novo e cheio de sensações. Seus ensinamentos foram capazes de iluminar nosso protagonista e sua explicação sobre como as cores podem ser explicadas através das sensações sonoras é um dos diálogos mais bonitos que eu já li em toda a minha vida. Sério, vocês precisam ler isso!

Do horror de uma mãe que sabe que concebeu um filho deficiente numa sociedade que não sabe lidar e abomina o diferente à redenção do amor verdadeiro e da felicidade em ver o filho desenvolver suas habilidades e florescer como ser humano comum. Músico, casado e pai. E não como um ser grotesco. Junto com Piótr, sua família também se desenvolveu. Ele teve condições e, apesar de todas as dificuldades, escancarou uma porta da sociedade e abriu caminho para uma discussão que vai muito além da deficiência em si.

Korolenko, ao meu ver, transformou em público assuntos que eram questões ignoradas pela sociedade. Misturou num livro só e deu voz a, basicamente, todas as vozes excluídas da Ucrânia daqueles tempos. Sentenciou a inabilidade da casta superior em andar não só junto do povo, mas também de criar estereótipos perfeitos. E o mais importante, as lições de Piótr foram dados pelos pilares subversivos e populares da sociedade, o que compõe a maior parcela da população, na real. Isso dá uma noção muito básica que deveríamos prestar mais atenção: a sabedoria e o poder emanam do povo. Piótr mostrou que cego é gente, mas precisou de muita gente para chegar lá. Essa gente toda estava sem voz, assim como Piótr. Essas vozes se misturaram em uma só, com ajuda mútua.

Se você ainda não percebe quantos Piótr temos hoje, olhe para o lado. Não, não falo somente de cegos ou deficientes físicos. Num aspecto geral mesmo. A maioria precisa se superar hoje em dia para chegar a algum lugar, poucos são os que conseguem. Korolenko pintou um retrato da Ucrânia de seu tempo, mas será que aqui é tão diferente assim? Acredito que não. Korolenko escreveu um manifesto de empatia, de luta e de resistência. O maior pesadelo de quem domina, é ver a ascensão de quem não tem voz. As vozes ao lado de Piótr se levantaram e todos venceram. E eu me pergunto: quando eu vou me superar? quando você vai se superar? quando nós todos iremos vencer?

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