Nathalie Quintane – Começo

Por Caio Lima

Tem poesia que é tão poética que não dá pra entender nada, né? São várias referências particulares, vindas de uma cabeça completamente avoada e que um ou dois conhecem 20% das referências ali porque estudaram muita crítica literária, destrincharam as obras da pessoa, leram biografias e toda obra de apoio possível e pescaram esse número comprovadamente miraculoso de significados dentro da obra desses poetas voadores. Isso acontece muito com Ana C., por exemplo, e eu acho que disse isso lá na resenha dela. Essa pessoalidade toda, para o novo leitor ou para quem está acostumado mais com a prosa, acaba resultando numa repulsa imediata e permanente. Mas há quem ouse juntar a prosa e a poesia e dessa fusão nasceu uma aberração, terror de qualquer leitor, a devassidão do mundo literário, a prosa-poética.

Nathalie Quintane é uma dessas pessoas que escrevem poesia cheias de referências que ninguém sabe onde se encaixam, apenas ela. Ela teve a audácia, ainda maior, de fazer isso lançando um livro de memórias da sua infância e adolescência, ‘Começo’. Ou seja, uma autobiografia, algo extremamente pessoal, com o nosso famigerado estilo chamado de prosa-poética. BANG! Um tiro na cabeça, já que esse é um convite à todos para que leiam e não entendam absolutamente nada do que foi escrito ali, mas achem bonito pra caramba e aplaudam sem se reconhecer naquelas palavras.

Sim, é bem isso mesmo. Viver de prosa-poética não é fácil, vide Valter Hugo Mãe que teve de dar uma aliviada na mão nos seus últimos livros (eu achei isso, ok?) e ainda leva a fama de escrever bonito sem dizer nada com nada. Mas no caso do ‘Começo’ de Nathalie Quintane, essa coisa lustrosa e cheia de referências desconhecidas, existe uma outra atmosfera a ser explorada. Nathalie consegue embutir dentro de sua obra uma cadência e forma diferentes e, mesmo não captando as referências extremamente pessoais, ela nos faz sentir tudo o que ela sentiu enquanto criança e adolescente.

Essa capacidade de manter a sua forma de escrever completamente viajante e conseguir passar o sentimento dos fatos narrados em poucas palavras que não parecem se encaixar é algo que eu ainda não havia visto até então. É aquele esquema de tomar o lugar do outro, saca? Dentro da narrativa que constrói, Nathalie vai fazendo uma sessão de regressão com você, trazendo à tona nossas próprias lembranças de criança para que, sem qualquer tipo de visão parcial criada por uma mente adulta e cheia de vícios, consigamos entende-la perfeitamente.

Esse é o ‘Começo’ de Nathalie Quintane, uma viagem pela nossa própria infância através dos olhos dela, que se mostram puros e desprendidos de qualquer conceito ou feixe de vergonha. É uma baita lição de que um livro deve ser lido e contextualizado para realmente tomar forma como uma obra inteira. Mas ao invés de insistir para que cada leitor fizesse isso, ela induz sem medo de errar. Sua coragem já faria desta, uma bela obra. Mas sua técnica coloca isso como um belo soco na cara que todo mundo deve tomar. Um brinde à velha infância.

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