Que história é essa?

Por Caio Lima

Afirmar nossas posições políticas, ideológicas e sentimentais, é algo profundamente intrínseco a momentos específicos. É bom ser uma metamorfose e ter a liberdade de agir sem a famosa consciência pesada. Nesses três meses de Rede de Intrigas eu passei a ser muito mais analítico, já que me posicionar para outras pessoas é um processo de formação dessa consciência também. Tentei elaborar pontos que me permitissem mostrar a vocês uma visão própria do livro, é claro, e que proporcionassem um ponto de vista fora do convencional, mesmo em se tratando de obras super conhecidas e resenhadas como “O Diário de Anne Frank”. Talvez, no futuro, eu olhe para trás e veja um baita tempo investido com bobagens, mas, reitero, nossas afirmações são provenientes do momento pelo qual passamos.

Repassando minhas resenhas e meus textos até aqui, eu falo muito sobre a questão da liberdade de pensamento, da construção de um senso crítico que seja inteiro (e não essa coisa fracionária aplicada hoje em dia) e críticas aos próprios véus históricos que nos são aplicados desde que a sociedade caminha nesse molde contemporâneo de globalização, materialização e tecnologia. E isso tem um sentido bem claro na minha nefasta, perversa e obscura cabeça: dominar todos vocês e criar um mundo de terror onde eu serei o ser supremo. Brincadeira. Pretendo fazer isso um dia, mas só depois de desenrolar meu canal no YouTube, porque lá tem muito mais audiência. Minha insistência nesses pontos são reflexo do que eu sinto falta ao meu redor e como diz MC Marechal, “eu já me senti livre, hoje eu quero é sentir que eu livro”. O lance é debater tabus, discorrer sobre preconceitos e a retirada desses véus que começam bem cedinho, quando somos alfabetizados e começamos ler as primeiras histórias.

Por falar em histórias, a história é quem mais sofre com essa coisa de liberdade, tabus e preconceito. Sempre fatiada, distribuída e remontada dentro de estereótipos específicos. Daí fica fácil definir quem está de qual lado, definir certo e errado, não esmiuçar problemas que dilaceram a humanidade desde sua formação para levar vantagem em cima da ignorância de muitos e a criação de constantes estados de exceção ao redor no mundo, pasmem, permitidos e corroborados pela lei. Isso acontece aqui em Paraty, na sua cidade, na América Latina, na África e no resto do fucking mundo. Mas o quanto disso sabemos, ou melhor, o quanto disso é interessante que nós saibamos, não provém de nossa única e exclusiva vontade.

Quantas vezes te deram a oportunidade de contar a sua história sem alguma interrupção que, por ventura, indicasse uma correção da sua própria versão dos fatos? Pense pelo tempo que for, mas são pouquíssimas vezes. Existe um processo tirânico nas questões de certo e errado e no poder que te faz subserviente a um certo desenrolar dos fatos, mesmo que no seu âmago você não tenha vivido a história daquela maneira. O aprisionamento de conceitos dentro da própria história nos torna suscetíveis a sempre estar sabotando registros para priorizar ou ratificar um dos lados do prisma.

É assim, relegando a nossa própria história, que abrimos a brecha necessária para que se apoderem da história em si. Todo o passado, os grandes acontecimentos, personagens, obras e lugares também sofrem recortes que se perpetuam. Ou seja, se da nossa própria história somos permissivos o bastante para que a recortem e façam versões que você toma como suas, seja por ignorância ou oportunismo, não achem que tudo o que é ofertado a vocês através de veículos midiáticos, livros de história, representantes do povo ou de movimentos quaisquer e pelo próprio escambo de informações maciço em redes sociais é a história “real”. Se você, hoje, não tem voz, é porque milhares de vozes foram suprimidas também.

Por isso, dentro da história, temos de nos retratar a todo momento. Porque sempre são descobertas milhões de vozes que gostariam de contar a sua história, mas foram impedidas. Normalmente, elas nem reconhecidas são pela maioria dos que ainda não perceberam que não possuem uma história própria. Mas faz-se necessário garimpar cada voz perdida e anunciar isso para o bem de todos, para o bem da história. Humanos corajosos foram capazes de tal feito, nos apresentando recortes do passado que jamais saberíamos pelas vias comuns de informação. Vozes notáveis que hoje fazem parte do prisma histórico e revelam o jogo perigoso das versões que nos fizeram engolir durante gerações.

E aqui voltamos ao começo, quando eu digo que ser uma metamorfose e não ter medo de mudanças é um estado pleno de liberdade exercida em toda a amplitude da palavra e, mais importante, da ação. Ser dono da sua própria história é fazer a sua voz prevalecer ante a todo e qualquer recorte da sua vida que possam ter feito sobre você. Só você sabe o porquê das suas decisões, das direções que tomou e dos atos que cometeu. Se você não deixa que falem uma versão de você como sendo sua história, porque vai acreditar na versão do país bonzinho que foi lutar contra o nazismo e retornar com a paz mundial, quando dentro das suas fronteiras grupos dissidentes da KKK e as próprias leis massacravam negros só pelo fato de serem negros?

A cada recorte diferente que aparece, reformulamos nossas opiniões sobre a história em si e em como estamos construindo a nossa própria história. Edificar a própria liberdade é garantir que outras vozes também prevaleçam ante sua própria história. Eu vejo a história de muita gente sendo escrita todo dia, mas entender o quão importante isso é foi um ensinamento da própria literatura. Voz a todos é o lema, então me conta a sua história aí. Fala comigo, bebê.

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