Anne Frank – O Diário de Anne Frank

Por Caio Lima

Quando se fala em Segunda Guerra Mundial, além dos milhares de livros e resenhas, existem dois agravantes (quase) unânimes: a linguagem e as opiniões acerca do assunto. Seja pelo inimigo comum, o nazismo, seja pelo desconhecimento naturalmente fomentado com a redução constante das aulas de história, filosofia e afins das escolas. Calma, não estou querendo dizer que o nazismo foi algo bom se visto por outro prisma. Muito pelo contrário, foi uma abominação. Minha crítica é pela generalização das opiniões, quase que doutrinadas. E isso consegue interferir em discussões acerca de obras extremamente pessoais, como o tão famoso e lido por todos, inclusive por mim (antes tarde do que nunca), ‘O Diário de Anne Frank’.

A decisão de repassar ao mundo escritos tão particulares não pode ser interpretada pelos leitores como um simples diário de guerra. Isso é relegar a Anne um espaço minúsculo dentro de seu próprio universo, e o universo de uma menina com catorze anos recém- completados beira o infinito. Viajar por esse universo talvez seja a melhor maneira de tentar entender e apresentar o maligno da guerra como pano de fundo na história de alguém. ‘O Diário de Anne Frank’ não é uma introdução sobre a Segunda Guerra Mundial, tampouco um livro de história para crianças. Se você leu pensando nisso, é melhor assistir um documentário do History Channel.

O silêncio absoluto para que ninguém descubra o esconderijo, o ócio, as rotinas domésticas, a divisão de um espaço quase claustrofóbico entre oito pessoas (sendo quatro delas completamente alheias à família Frank), o racionamento das necessidades mais básicas, como comida e acesso a higiene pessoal, e a própria escolha entre viver num cativeiro para escapar dos nazistas ou botar a cara no sol e acabar parando em um campo de concentração. São situações recorrentes em quase todos os registros no diário de Anne, que denotam conceitos de liberdade extremamente amplos e abrem espaço para que até seus pensamentos sejam, em parte, cerceados pelo cárcere em prol da sobrevivência. Que situação…

Tentar entender como Anne trabalha e molda sua rotina para que a falta da liberdade não a limite tanto dentro do confinamento, para mim, é o grande ponto do livro. Seus registros no diário dão a oportunidade para que ela aprecie o máximo de liberdade que pode usufruir do abstrato, já que a liberdade física é num todo inexistente. A literatura salva e, além de salvar, liberta. E ter a sensibilidade de descobrir e usufruir dessa liberdade tão jovem é algo encantador. Isso vai além do discurso, da técnica e do estilo.

Essa pureza de registro, colocando todas as contradições, aspirações e mudanças naturais da idade presas dentro daquele abrigo, evidencia ainda mais em como Anne manipula de forma ampla toda a liberdade que não tem. E, sendo a adolescente que é, mostra a falta de domínio sobre tudo que a incomoda. Ela peca por excesso, peca por falta e peca até quando faz o que deveria ser feito. Mas os erros são meras passagens e ela reconhece isso por diversos momentos enquanto escreve, porque a liberdade de escrever lhe confere a maturidade de refletir e ponderar suas ações.

Essas reflexões todas sobre liberdade, escrita e transformações, fazem muito sentido para mim no momento que Anne afirma ser um espírito livre. Espíritos livres não se contentam com a imposição de limites, leis, regulamentações e outras formulações opressivas. Existe uma constante busca pela liberdade em qualquer meio, de qualquer maneira. O simples ato de contemplar o céu por uma pequena fresta na janela é um ato de rebeldia contra o isolamento forçado do mundo. O ato de escrever tudo o que pensa é se rebelar contra tudo aquilo que não pode falar dentro do confinamento.

A expectativa pelo novo dentro desse ambiente claustrofóbico causa mistos de uma excitação muito grande e um esmaecimento repentino dessa animação toda. Isso acontece com seus surtos de amor e de saudades de um tempo que ainda não passou, com a chegada do seu período menstrual, com as crises de relacionamento com os moradores do abrigo (sem exceção) e com a esperança do término da guerra. Essas tensões internam só aumentam conforme o tempo passa, é óbvio. E esses extremos desequilibram Anne, coitada. Natural. Eu, talvez, não teria forças para passar por tudo que ela passou sem pirar completamente. Stefan Zweig não teve, ora veja (e olha que ele escrevia, e muito). É bem evidente que nos momentos com as maiores tensões emocionais ela escreve continuamente, revisa seus escritos e busca um traço de esperança ou alguma forma de sentir menos medo.

As pequenas atitudes realizadas no cotidiano na simples busca de não perder a lucidez e a única liberdade de que pode usufruir sem qualquer regra ou limite, trazem à tona a grandeza e a relevância dos escritos de Anne Frank. Sua busca incessante pela manutenção da esperança de dias melhores e por ter, finalmente, a liberdade em toda sua plenitude são inspiradoras.

Eu fui ler ‘O Diário de Anne Frank’ já burro velho, mas eu torço para que essa mensagem possa chegar também aos novos leitores: LEIAM ANNE FRANK PENSANDO NA ANNE FRANK, sob todos os aspectos. Claro que o período histórico tem muita influência sobre a menina, mas o escritos são dela e é a ela quem devemos procurar quando lemos. A todo o momento conversamos com Anne Frank, não com a guerra. São os olhos, as palavras e os sentimentos dela que estão ali. Talvez, assim como eu encontrei, vocês encontrem ali escritos sobre amor, coragem e, principalmente, liberdade. Sejam livres, galera. Senão totalmente, sejam o principal: livres de espírito.

P.S.: Espero que todos tenham aproveitado a mensagem e gostado da resenha, mas essa resenha em particular tem endereço certo. Esse livro me foi dado pelo maior espírito livre que já conheci na vida. Se não fosse por esse espírito livre, eu não estaria aqui hoje. Talvez ainda estivesse procurando algum lugar. Enfim, me alongar aqui é besteira.

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