Livre Pensar

Por Caio Lima

Nos meus textos os leitores fieis do Rede de Intrigas devem ter percebido que eu repito algumas vezes a frase “a literatura liberta”. Pode parecer uma ideia muito romântica sobre um objeto e é até contraditório para alguém que se julga iconoclasta. Mas o que seria da vida se não fossem nossas contradições, né? Eu nunca me preocupei muito em me contradizer. Muito disso se deve à minha relação com a literatura ter se tornado tão estreita e ter influenciado diretamente no meu amadurecimento. Usar os livros como um simulacro de mim mesmo, criar essa espécie de observatório da minha consciência, me abriu novas perspectivas em momentos de tensão extrema e totalmente adversos. O blog é uma criação de momentos assim, inclusive.

Em tempos de inclusão digital, de dar uma importância maior às silhuetas, à forma e ao que chama a atenção visualmente, há uma tendência de atribuirmos o conceito de liberdade dentro das nossas possibilidades físicas ou táteis. Tudo aquilo que desenvolvemos com nosso corpo ou que podemos visualizar facilmente nos é mais agradável, mais palatável e suficientemente satisfatório para justificar o modo que escolhemos viver. Expressamos a nossa liberdade e satisfação com o corpo quando, através dele, conseguimos expressar o que pensamos. Através de tatuagens, da roupa, da forma, do penteado, da cor dos cabelos e assim vai. Mas é extremamente tênue a linha entre expressar a tua liberdade através do corpo e acreditar que a liberdade se dá através do corpo, do físico, em absoluto.

Todo período de recessão provoca correntes que distribuem algo visualmente simples e de fácil assimilação intelectual. Essas correntes tendem a fortalecer que tudo o que te liberta é físico, que todas as soluções são visíveis e palpáveis. Isso reforça o sentido da liberdade ser algo físico e produz um reducionismo de conceito completamente torpe. Gera estereótipos, gera padrões de comportamento e designam ações que induzem ao perigosíssimo senso comum. “Bandido bom é bandido morto”, “todos os políticos são corruptos”, “isso é mimimi”, “eu não preciso do feminismo”, “escola sem partido já”, “minha bandeira não é vermelha”, “menos Paulo Freire, mais Alexandre Frota”, “o almoço não é de graça”, “ler é perda de tempo, prefiro fazer algo realmente produtivo” e “pessoas com dinheiro investem nas pessoas, por isso temos que ajudar os ricos”. Vocês percebem como cada uma dessas frases é visual, cria estereótipos e reduz problemas gravíssimos da nossa formação (em todos os aspectos) como algo simples de resolver?

É muito natural enxergar isso tudo e querer estar recluso, evitar a fadiga e dar importância às coisas que realmente são suas e não ligar mais para o resto, já que sua oposição não teve força para mudar o que quer que seja. O grande problema de nos fecharmos é que tratamos a liberdade dessa mesma forma simplista, o que é uma grande contradição de quem procura liberdade de pensamento.  Fazemos do que amamos uma muleta para não encararmos de frente tudo o que nos incomoda. Mergulhamos na rotina, no trabalho, nos estudos, nas relações confiáveis e as usamos como escora. Nisso ficamos cada vez mais restritos, cada vez mais presos.

A literatura não permitiu que eu tivesse uma recaída e enveredasse pelo caminho dessa falsa liberdade que vendem por aí e também não permitiu que eu me isolasse do mundo, conservando apenas os que tem pensamento semelhante por perto. Não que eu me considere um ser humano elevado ou algo do tipo, mas através da literatura eu aprendi a questionar, analisar, filtrar e a ponderar e corrigir minhas opiniões e visão de mundo. Isso me dá a liberdade de me contradizer e mudar de opinião com a tranquilidade e serenidade de não dever e não (fora) temer ninguém. A literatura me ensina de diferentes maneiras que o livre pensar conduz todo e qualquer outro tipo de liberdade. Se eu conseguir transmitir através desse blog o tanto que a literatura foi capaz de transformar a mim e ao meu meio, sinto que minha missão com esse projeto de literatura de guerrilha, além de um sucesso, seria a realização de um sonho.

E você, é livre de verdade?

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