Mario Bellatin – Flores

Por Caio Lima

A arte é uma ferramenta importantíssima de protesto. Todos sabem disso, é bem óbvio e coisa e tal. Mas reforço essa frase logo aqui no começo, porque sempre caímos na falácia de estereotipar protestos, movimentos ou acontecimentos históricos. Palavras como protesto, revolução, insurgência e revolta são atreladas a imagens de forma proposital, na maioria das vezes. Acho que consigo esclarecer isso muito bem quando vejo gente falando que golpe de estado é o que aconteceu na Turquia, porque o exército saiu nas ruas, ignorando o “golpe branco” que rola aqui. E a cada dia as leis vão sendo modificadas a bel prazer de interesses escusos. Tudo é legítimo, afinal aqui no Brasil não existe um golpe.

A arte é uma ferramenta importantíssima de protesto, reforço. Isso acontece pelo fato de que através da arte, podemos brincar com a realidade. Sair do convencional, direcionar opções para além do que os olhos veem e sair do senso comum. Isso não significa ser bem aceito ou compreendido, longe disso. Mas você está sendo transgressor. E o ato de transgredir é de uma nobreza sem tamanho. Você está apresentando uma releitura de alguma alternativa ou até mesmo abrindo novas portas.

E aí você pega um livro chamado ‘Flores’, do mexicano Mario Bellatin. São 80 páginas e 36 flores. Cada flor é um capítulo ou um micro conto. Você pode ler 36 histórias diferentes ou uni-las todas como um grande buquê. Tudo vai do gosto, da essência e da intenção. Toda flor compõe uma parte da história da criação de um fármaco poderosíssimo, mas extremamente nocivo para grávidas que estão entre um e três meses de gestação. O fármaco atinge o feto, atrapalhando seu desenvolvimento. O bebê nasce com deformações nos braços e pernas. Isso afetou toda uma geração. Mas é claro que isso foi ignorado pela indústria, ávida pelo lucro, e encoberto pela mídia e esferas políticas.

Flores, fármacos e protesto. Mario relata milhares de vidas afetadas pelo descaso da máquina. A ciência não tem freio, merecidamente. A liberdade de pesquisa propicia os avanços, mas a partir do momento que afeta o desenvolvimento normal do indivíduo, ela deve parar e rever os processos. O problema é que para ter ciência, há investimento pesado. O investimento precisa de retorno. O quanto o retorno é responsável pela liberdade científica, essa é a chave. Os princípios éticos e morais que regem o mercado científico são muito dúbios na sua relação entre resultado e retorno financeiro.

Talvez as flores não sejam claras para você até aqui. Talvez ainda não sejam após esse parágrafo. Mas flores são mutantes. Apesar da delicadeza, são de uma adaptabilidade fora do comum e sofrem com a inconstância de humor da mãe natureza. Mas não perdem a essência, mesmo quando alteradas. Como pode? Florescer uma flor diferente a cada geração, ao bel prazer da influência da mãe natureza. Uma chamada grave aos que usam da ciência como ferramenta de melhora imediata e trabalham com amostragem, excluindo minorias. Movimentar-se em busca da perfeição gera resultados, mas não dinheiro. Movimentar-se em busca de dinheiro gera aberrações, não perfeição. Lembre-se das flores. Torne-se um exímio jardineiro ou compre seu buquê.

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