Svetlana Aleksiévitch – Vozes de Tchernóbil

Por Caio Lima

Pessoas fazem história todo dia. Eu, você, a tia que vende tapioca na faculdade (saudades, tia) e todo mundo. Somos fonte da história que fazemos e das que vamos nos metendo pelo caminho. A dimensão que você dá a sua própria história depende de você e com quem você a divide. A maioria das pessoas pode achar que esse blog é um fracasso, por exemplo. Eu o colocaria como um sucesso. Só as pessoas que me foram trazidas por esse singelo espaço, o tornam um sucesso.

Esses múltiplos sentidos da vida são melhores que qualquer autoajuda. Talvez seja o que dê o reconhecimento (merecido) ao Vozes de Tchernóbil, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2015, “ouvido e transcrito” pela bielorrussa Svetlana Aleksiévitch. Muito provavelmente esse foi o livro que me causou mais problemas nessa vida de fazer resenhas:

  1. Pelo fato de ter me deixado num estado de morbidez, comfortably numb (Waters, Gilmour, paga nóis), fora do comum;
  2. Após a mesa da Svetlana na FLIP, eu fiquei me perguntando “o que mais eu poderia falar?”. Ela chegou com o pé na porta e amarrou muito bem os assuntos;
  3. É um livro que está sendo tão resenhado, que eu estou com um medo muito sério de ser repetitivo e ficar no lugar comum. O que complica, porque mais do mesmo é muito ruim pra quem lê e para o ego de quem escreve também. Hehehe.

Somos acostumados a aprender a história através dos tecnicismos escolares. Um expoente majoritário que cria as bases/leis/regras, uma situação específica e um lugar no planeta, misture tudo numa bacia e pronto, temos um evento histórico. Vemos tudo de longe, como se teorias políticas, guerras, desastres, civilizações e a própria evolução fossem imbuídas de caracterizar e organizar a história por si só. Talvez seja isso mesmo. Essa história é continuamente escrita e documentada.

Sob essa perspectiva continuamente escrita, ficamos tristes ao ver inocentes mortos pela interminável guerra de poder nas cidades. A falta de segurança e a não perspectiva de uma solução são alarmantes. Mas essa mesma violência é natural. Discutimos a inabilidade do Estado para lidar com isso, como o crime é organizado, corrupção, boas maneiras e qual uva faz o melhor vinho, tudo ao mesmo tempo. Somos capazes de falar que “o João Roleta, irmão do Zé Catraca, lá do morro do Véu Vendado, morreu com um tiro de 12 na cara” com uma indiferença sórdida.

Svetlana Aleksiévitch - Vozes de Tchernóbil.jpgÉ lógico que quando lemos a palavra Tchernóbil, o que vem a mente é a catástrofe. Os fatos e o tempo. Os fatos explicam muito bem o impacto de Tchernóbil para a ciência, a política, enfim, para a história. O tempo, intuitivamente, selecionou cada fato grande o suficiente para fazer valer à pena sua relevância histórica. Há diversos cacoetes e chavões técnicos ao se discutir Tchernóbil, talvez para que a soma entre tempo e fato não nos dê a chance de sofrer além do acidente em si. Nada é mais importante que a história, afinal. Mas é tudo tão distante, ermo e frio.

Dizem que ouvir e colocar os relatos num livro não é literatura, não é livro jornalístico, não é nada além de um documento. Aí você vê um “documento” ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Procurando a história do tal “documento”, eu descobri que isso é fruto de 40 anos de entrevistas que formam uma série de cinco livros chamada Vozes da Utopia (que nome! QUE NOME!). Resultado de jornalismo investigativo puro, sensibilidade, empatia e vontade de realizar um trabalho que não seja apenas transcrever um conjunto de grandes histórias, mas revelar pedaços que a história insiste em suprimir até ocultar. As histórias que sucumbem ante a imponência dos fatos e o poder do tempo.

Da Svetlana, em si, temos um breve prefácio, os títulos dos relatos (magníficos), o discurso feito ao ganhar o Nobel de Literatura e os parênteses com as reações dos entrevistados. E só. Esqueça qualquer ardil literário, manifestação política, aquele estoicismo que encontramos nos nossos historiadores preferidos, o duplipensar de autores medíocres que querem seguidores fiéis e espaço na mídia, os fatos que compõem um artigo científico e a criatividade interminável de um autor de ficção científica. Nada disso existe em Vozes de Tchernóbil. São apenas relatos das pessoas que conviveram ou ainda convivem com a tragédia. A abrangência dos relatos, a urgência, o sentido disso tudo, fica a cargo do leitor.

Em meio aos grandes momentos da história existe algo subjetivo, manipulável e frágil. Cada entrevistado, na profunda dor, na inocência, inconformismo, devoção, incredulidade ou pureza, passou uma visão muito particular do que foi Tchernóbil. De como as vidas foram modificadas, ou não. Essa coleção de relatos profundos, pacientes, que divagam de um ponto ao outro, muitas vezes sem objetivo nenhum, nos colocam frente a frente com a maior deficiência que temos: a capacidade de se colocar no lugar do outro, a falta de empatia com o sofrimento alheio. Não existe uma transferência de culpa ou vitimismo. O livro inteiro é um exercício extremamente físico de como reagimos a cada um daqueles depoimentos. Ou você se rende e se abre para absorver as experiências das pessoas ou você larga o livro.

Entender as pessoas. Ouvir, absorver, sentir. Foi a única coisa que Svetlana fez ao longo dos anos. A “mulher-ouvido”, sem escrever uma única palavra de sua autoria, provocou esse alarde todo. Deu espaço a todas essas vozes que a grande história ocultou. São essas as pessoas, e outras tantas, atingidas pela catástrofe nuclear de Tchernóbil. Agora todos nós as conhecemos. Eu nunca fui capaz de pensar sob esse aspecto. Acredito que poucos foram.

Ao longo do livro eu fui desarmado. Nenhuma evidência histórica me traria a sensação de desalento ao ver trabalhadores rurais tão apegados a sua terra, agora contaminada até o talo com radiação, voltarem para suas casas e continuarem suas vidas e comerem seus tomates, agora radiativos. O avanço das horas não me fez chorar menos com as crianças, que corriam de peito aberto e não aceitavam serem castigadas por algo que não podem ver, sentir ou tocar. A radiação transformaria a todas, inevitavelmente. Suas esperanças me transformaram, felizmente.

Através da perspectiva de cada um, enxergamos uma hecatombe diferente. Momentos de profunda devastação moral, com os primeiro e último relatos do livro. Momentos de riso frouxo com algumas figuronas. Momentos de esperança com os relatos das crianças. Momentos de ternura, raiva, inconformismo. Uma coleção de visões. É estranho quando você se reconhece capaz de entender outra pessoa plenamente lendo apenas um relato dela, não é? Não somos acostumados a isso no cotidiano. Isso choca.

O evento, em si, desencadeia tudo. Mas o que dá o sentido a tudo são as pessoas. Coisa que a história faz questão de esquecer ou não mostrar. Sempre compramos uma versão técnica, bonita e cheia de correção para fazer jus aos fatos e ao tempo. Mas a história é feita por pessoas, para pessoas e atinge pessoas. Qualquer ideal que deturpe isso nos afasta do que verdadeiramente somos. Vozes de Tchernóbil no traz de volta instantaneamente, assim, finalmente, vemos as nossas imagens refletidas num espelho, quando somos educados para enxergar tudo em vitrines. São iluminados os capazes de provocar isso. Ou são, tão simplesmente, humanos.

O trabalho de Svetlana é tão especial por isso. É uma reeducação do ser humano, uma nova aula de história. Durante três semanas pensei em como resenhar esse livro. Hoje ainda sinto que essa resenha não será capaz de tocar alguém como eu acho que deveria tocar, muito provável que eu tenha ficado no lugar comum. Mas isso deixou de me interessar. Meus olhos se voltam às histórias que vivencio diariamente, nos fatos que a história anda registrando mundo afora e, principalmente, nas milhares de histórias que o tempo e os fatos farão questão de passar por cima. O tempo, o fato e a história. Não, nada disso importa mais.

4 comentários em “Svetlana Aleksiévitch – Vozes de Tchernóbil

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    1. Valeu, Yumiiii! Esse foi um desafio e tanto. Toda hora que eu parava pra resenhar, eu começava a fazer uma reflexão muito profunda do meu meio e em como eu vejo o desenrolar das coisas. Enfim, você definiu bem: lindo e doloroso! Ouch…

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  1. Caio, que resenha incrível! “Vozes de Tchernóbil no traz de volta instantaneamente, assim, finalmente, vemos as nossas imagens refletidas num espelho, quando somos educados para enxergar tudo em vitrines. São iluminados os capazes de provocar isso. Ou são, tão simplesmente, humanos”. Não poderia concordar mais contigo. Parabéns pelo blog, adorei tudo por aqui 🙂

    Curtido por 1 pessoa

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