Recortes|FLIP 2016

Há uma tendência de injetarem assuntos e trata-los sob um aspecto unilateral. Dessa forma, os movimentos sociais tão importantes perdem de vista o lado do próximo e se afastam um dos outros e, consequentemente, da realidade. A aplicabilidade da teoria se torna inviável, pois não há um entendimento mútuo. A empatia torna-se seletiva.

Lá na resenha do José Donoso, sobre o livro O Lugar Sem Limites, eu havia falado que as pessoas sofrem múltiplos preconceitos e que isso é uma maneira de controle social. Utilizo novamente do exemplo da mulher negra: existem todas as dificuldades aplicadas à mulher através de uma sociedade machista e, além disso, ela ainda sofre do preconceito racial. São dois pesos enormes e que pesam ao mesmo tempo. Não dá para separar a hora que ela deve ser mulher e a hora que ela deve ser negra, saca? Mesmo que ela conseguisse se dividir, ela ia sofrer um preconceito por vez. Olha que merda.

Não, isso não é um manifesto para que todos os movimentos sociais sejam revisados ou que está tudo errado. Todo mundo possui sua luta e deve levantar a bandeira que lhe convém. A questão é: a partir da expansão de cada movimento, é natural que eles se esbarrem em algum ponto e a empatia (palavrinha mágica) entre os movimentos é de suma importância para que sejam cada vez mais relevantes e fortalecidos, afinal, todos buscam seu espaço numa sociedade dividida em castas por diversas ordenações, seja racial, de gênero, religiosa, política, geográfica e assim vai.

A FLIP desse ano escolheu Ana Cristina Cesar como homenageada. Foi bom por dois motivos: o empoderamento da mulher e trazer à superfície uma face da poesia marginal.

Quanto ao empoderamento da mulher, a FLIP foi bastante competente. O assunto era a mulher. Não foram escolhidas mulheres como um complemento, respeitando uma cota, de forma secundária e até como um “forçar a barra”. Ana Cristina, Clarice e Svetlana encabeçaram as discussões, mesas e expectativas de todos. Abriram um bom precedente para a discussão de gênero, com mais liberdade e desenvoltura. Foi uma boa guinada sob esse aspecto.

A poesia marginal tem essa questão de trazer as pessoas para dentro da arte. Junto com o destaque da mulher, realmente a FLIP esteve mais próxima do público num aspecto geral. Foi um belo casamento. Aquele distanciamento que a arte provoca entre autor e receptor foi bem reduzido, principalmente se tivermos em vista a FLIP do ano passado. As ruas estiveram mais plurais e cheias de vida, apesar de receber um público menor que o comum.

A arte marginal nasce da necessidade de expor e reivindicar questões suplantadas pelo sistema. Na ordenação social que vivemos, com esse sistema de castas implícito (será?), é uma maneira de garantir voz a quem é massacrado pelo sistema, mas ainda procura resistir.  Grandes artistas que viveram à margem do sistema vêm dessa escola mais letrada, ou defina como quiser. Existe aí um exercício de empatia e representatividade. Eles poderiam estar inseridos no sistema com tranquilidade, vieram de famílias tradicionais e poderiam se manter na zona de conforto acaso quisessem. Mas preferiram, através da sua ideologia, lutar contra os pilares sobre os quais a sociedade estava formatada. É o caso da própria Ana Cristina, que teve a oportunidade de estudar na PUC-RJ, e de diversos outros artistas marginais célebres.

A questão é: na programação da FLIP, tudo o que é poesia marginal foi exposto? Não. Não foi. A Ana Cristina produziu sua arte marginal, seus amigos também e toda essa classe é uma vertente literária e mais acadêmica do marginalismo. Isso não tira o valor da obra de cada um. Reconheço a importância de cada um deles (vide a resenha que fiz da Ana C.). Isso é incontestável. A homenagem foi justíssima! E eu fico feliz da poesia marginal estar ganhando o mercado das grandes editoras. É um avanço enorme e é bom para mostrar para a grande maioria que vive à margem o valor dos seus escritos, mesmo o reconhecimento vindo com três décadas de atraso.

Mas é apenas uma face do movimento. A face que quiseram mostrar, ou seja, a face comerciável na visão das grandes editoras. A face que foi especialmente selecionada para que as pessoas que nunca tiveram contato com arte marginal sofram o primeiro contato, consumam, elogiem e saiam satisfeitas. Seletividade.

É aí que mora o erro crasso da FLIP. Ela representou parte da poesia marginal, com certeza. Mas todos que fazem poesia marginal foram representados? Não, a grande maioria da população que vive em situações marginais, que produz e é tema da arte marginal, foi deixada de lado. Tudo o que foi discutido e mostrado na FLIP foi muito relevante, mas esteve longe de ser abrangente. E se o maior evento literário do país não é capaz de apresentar e dar espaço às vozes plurais que o Brasil possui, qual evento será? Um evento literário desse porte, com tanto reconhecimento internacional (foi capaz de trazer a recém-premiada com o Nobel de Literatura), que tem uma curadoria altamente capacitada e que não consegue enxergar que o Brasil é plural e precisa ser representado com todas as suas vozes. Isso é lamentável, pois é um hábito histórico esse esquecimento inato. Se torna agravante numa época que, finalmente, não há mais maneira de deter as vozes que se levantam.

Num momento de instabilidade política, parece que a classe literária se movimentou pela ressurreição do Jesus MinC e só. Foram três dias de gritos e depois do milagre a grande maioria gritou um “fora, Temer”, reproduziu um discurso mal ensaiado e extremamente populista e parou por aí, salvo exceções. A manifestação política é livre e é essência da arte marginal, mas, mais uma vez, deve ser feita com abrangência, com criticismo apurado e aproveitar o contato muito próximo com o público para sua exposição. Mas, em sua maioria, os envolvidos com a FLIP parecem não ligar para os outros dez ministérios cortados ou sublocados que garantiram o mínimo do mínimo (nesse Estado burocrático, inflado, esquizofrênico e liderado por coronéis) de investimentos para diminuir os prejuízos causados por uma formação excludente, por exemplo.

É lá onde nada funciona, e ninguém liga para que funcione, que brota a razão de ser da resistência ao sistema. Opiniões políticas dissonantes, ser contra as normas sociais vigentes, procurar seu espaço de fala. Tudo isso é o processo que passa quem já nasce na marginalidade, quem não tem escolha. É por eles que as coisas devem ser modificadas e é, principalmente, a voz deles que precisa de espaço. O tema estava lá, o espaço foi desviado. O que aconteceu foi expor o marginal com tempero de ervas-finas, o “marginal gourmet”.

Ao querer deixar a poesia marginal mais palatável a certo público, a organização da FLIP errou feio e deixou a maioria do povo brasileiro de fora da festa. Quem sofre é a periferia, composta em sua maioria por negros. Vi muitos artigos falando da ausência de negros na programação da FLIP, mas não quis ler nenhum. Preferi ver como isso seria tratado durante o evento. Sabe o que acontece? Não houve justificativa plausível pra isso. Ficamos sem respostas, apenas questionamentos. A voz que se levantou foi a de J.P. Cuenca, na mesa Livro de Cabeceira (no apagar das luzes da festa), revelando que Lima Barreto deverá ser o homenageado do ano que vem. Seria um calaboquitos pra galera que reclamou? Será que é verdade? Eles vão representar os negros e esquecerão as mulheres, os índios, as questões sobre gênero e todo o resto, como foi esse ano? Usarão dessa seletividade para tornar tudo palatável para um público alvo? Brancos não entram?

Um evento desse porte deve possuir estrutura e conteúdo suficientes para abraçar toda a população. Cultura é direito de todos e o evento é grátis. Por que continuar cometendo o erro de agir com essa seletividade de assuntos, segregando quem participa intuitivamente? A poesia marginal tão pungente nos seus dizeres, na sua representatividade, foi reduzida para agradar e trazer uma sensação de “conforto quanto ao social” a um público alvo, às grandes editoras e aos patrocinadores. Mas as ruas não foram caladas e tomaram bastante conta das movimentações culturais da cidade, fazendo um bom barulho, muito maior que em épocas passadas. Aconteceram manifestações artísticas espontâneas, protestos, debates e isso chamou a atenção.

À coordenação da FLIP, Fundação Casa Azul e patrocinadores: vocês ganharam constantes votos de confiança. Mas quando surgiu a oportunidade de dar espaço a quem de direito, com um tema que traria nas costas todas as questões que são levantadas diariamente e uni-las sob a ótica da arte e de um festa tão especial, deram uma rasteira na galera. Excluíram vozes que já se recusam ao silêncio intuitivo. O barulho tá aí debaixo da tua janela e não dá pra ignorar mais. A rua vê, a rua ouve e a rua cobra. Não há possibilidade de admitir que sejam representados recortes.

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