Cristina Teixeira – O Reino do Homem de Um Olho Só

Por Caio Lima

Um dos projetos do Rede de Intrigas é o de abrir espaço para autores marginais. Como estamos no início, fica meio complicado conciliar todas as propostas do blog ao mesmo tempo. Então a parada foi esperar um momento oportuno para dar início a mais esse projeto e, para ver demonstrações múltiplas nas ruas, nada melhor que a FLIP, certo? É uma aposta bem óbvia, mas dizer-lhes-ei-vo-lhe (já que mesóclise agora é tendência) que o sucesso foi além do esperado. Para estrear esse quadro/coluna do Rede de Intrigas selecionamos o livro O Reino do Homem de Um Olho Só, da Cristina Teixeira. Que, aliás, foi começar com o pé direito.

Entrar no universo de Robin Merrick não é fácil. Parte disso se dá pelo fato dele ser um psiquiatra e psiquiatras não são pessoas fáceis. Principalmente psiquiatras forenses que criam um método para explorar regiões do subconsciente em busca de memórias bloqueadas por um trauma. É o método do DMS, o projeto de vida do cara. Essa história de colocar o desenvolvimento de uma metodologia de trabalho como projeto de vida é algo bem temerário. Vai que você se envolve até o talo com o trabalho e acontece de dar tudo errado, né Merrick? Conta aí pra gente o que aconteceu com Elliot Hess, cara. O caso Hess é o calcanhar de Aquiles do psiquiatra e o influencia em todos os seus passos. É um carma.

Cristina Teixeira - O Reino do Homem de Um Olho Só.jpgA outra parte do universo de Merrick que é difícil de adentrar é que as descrições são feitas por um narrador cego, que é o Merrick. Foi mal, esqueci de falar. A criação do processo descritivo deve ter sido bem complicadinha. Emular um cego e conseguir escrever as sensações do cara no ambiente deve ser um desafio e tanto, e é um dos pontos que eu mais destaco no livro. Os encontros repentinos, a questão de sentir a presença e não poder ver, tentar se situar no ambiente através dos outros sentidos, tudo isso dá uma sensação de privação muito grande. É angustiante e claustrofóbico não ter a liberdade que a visão te dá, já que ele não é o Demolidor ou a Arya Stark.

Após receber o caso de Charlie, que é o principal suspeito de matar a própria esposa e filhas, para aplicar o DMS após o trauma com Hess, já aposentado, a vida do Doutor Merrick vira do avesso completamente. Primeiro, porque Charlie conhece todos os seus passos e o envolve completamente, segundo porque o DMS é um sistema em descrédito e usado como plano de emergência para aquele caso específico, ou seja, a última chance de comprovar que a obra da sua vida dá resultados e, por fim, o caso Hess que volta e meia o assombra ou lhe é jogado na cara por todos os seus superiores. Ou seja, a cabeça do nosso amigo Rob, que já tinha traumas e complicações suficientes para se preocupar, conseguiu piorar.

O amigo entrou em parafuso. Isso fica bem explícito pela forma que seu alter ego se funde à narração da história, criando pontos de distorção no próprio entendimento da história. É uma maneira de extrato mental e conforme a história anda é perceptível a evolução do quadro do psiquiatra. Fazendo uma justaposição: ao ler a história de um psiquiatra que precisa analisar e se pôr no lugar de um paciente e automaticamente nos colocamos automaticamente no seu lugar ao analisa-lo no decorrer dos acontecimentos absurdos, como diria Camus, que se atropelam e acontecem de uma hora para outra. Mindblowing. É o trunfo do livro. É onde você fica preso.

A narrativa é rápida, os fatos se sucedem igual repente, rapidinho, e conforme o caso vai avançando como é que para de ler? Um thriller psicológico de qualidade. Melhor que muita coisa enlatada por aí e tá só esperando você criar vergonha e ver que tem muita qualidade fora das recomendações da Veja, das promoções da Submarino e do que os grupos de livros do Facebook ficam discutindo. Pode ir sem medo que o pai garante que é coisa muito boa.

2 comentários em “Cristina Teixeira – O Reino do Homem de Um Olho Só

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