Irvine Welsh – Trainspotting

Por Caio Lima

O que é sistema? Afinal, o que é que te prende a esse conceito de que há um modus operandi que cerceia tua liberdade e te define um padrão de vida? É a partir do sistema que existe a contracultura. Mas o que é contracultura? Calma, vou tentar explicar tudo isso aí muito rápido. Cultura é um conjunto de práticas realizadas nas mais variadas áreas possíveis que definem um nicho social. Não, cultura não é ouvir música clássica e ler Albert Camus pra gatinha, isso é erudição (que é o acúmulo de diferentes culturas, e não uma norma sobre o que tem mais classe ou é mais elegante) ou vontade de se mostrar para a gatinha mesmo (não caia nessa, chapa. Não funciona. Já tentei :/). A junção de todos os movimentos culturais praticados por uma maioria de pessoas num determinado país, por exemplo, geram os pilares culturais formadores do sistema daquele país.

A contracultura, como você deve estar imaginando nesse momento, é o movimento de ser contra o sistema. De corpo e alma. Todas as suas práticas agridem o sistema pontualmente. Um desafio constante de não se deixar levar pela maioria burra que anda como gado direto para o abatedouro social.

Muitos livros fazem parte do imaginário da contracultura: Na Natureza Selvagem é um protesto solitário e decadente. Walden e A Desobediência Civil são loucura, pureza e guerra. E vou parar com os exemplos para que não denunciem o blog para um órgão de inteligência do governo por atentar contra a ordem pública. Ou vai que minha família tá lendo isso, o que eles pensariam sobre mim?

Daí vem a FLIP 2016 com um escocês chamado Irvine Welsh para fazer uma mesa polêmica junto a um ex-viciado em crack. Daí vem a Bruna (já pode tirar onda na lagoa vermelha, patinha) me falando de Trainspotting. E eu me propus a lê-lo.

Não é à toa que Trainspotting é um dos maiores ícones literários da contracultura. Irvine devia estar sob o efeito de deuses ao escrever esse livro cheio de heroína. Ou estava cheio de heroína mesmo, quem sabe. O lance aqui é: o livro é sujo. Do início ao fim, o livro é sujo. Mas você é quem sabe se a sujeira está nos personagens ou no sistema.

A história gira em Leith, o underground de Edimburgo, e tem umas passagens por Londres também, mas nada demais. E em vários momentos o ambiente é muito mais forte que os próprios personagens. Isso não é incomum em livros sobre contracultura, mas em Trainspotting isso fica mais apurado. É no subúrbio de Edimburgo que todos esses jovens se sentem confortáveis para agir contra o sistema da forma que melhor lhes apetece. Acaba sendo um organismo separado da cidade, onde impera uma lei diferente imposta por seus frequentadores. Mas que leis são essas se todos são avessos às leis, mano?

Manja Raulzito quando diz “faz o que tu queres, pois é tudo da lei“? Vocês já pararam pra pensar, com certeza, que manter o foco quando a função é remar contra a maré é uma parada descomunal de tão difícil. É uma condição de explorar limites. Você testa os limites do sistema enquanto tenta encontrar os próprios limites. Andar na linha tênue entre ser um herói para uns e um bandido e/ou fracassado para a grande maioria, inclusive sua família. Até quando você conseguiria simplesmente ignorar o mundo real e se dar por satisfeito com a aceitação daquela tua galera? Chega uma hora que não é suficiente. Você precisa extravasar. Teu jeito de extravasar sempre vai ser proporcional à pressão que é exercida sobre seus ombros.

Drogas, sexo e violência! Três dos maiores tabus da sociedade e três das práticas culturais com mais desmembramentos a serem explorados como válvula de escape para qualquer pressão. Se for parar pra pensar, historicamente é assim. Num universo onde tuas pressões devem ser proporcionais ao teu alívio, a cocaína é uma droga leve, por exemplo. É isso mesmo. Acho que deu pra sacar o nível das pressões que encaramos aqui, certo?

Quanto mais risco se assume, mais se extravasa. E quanto mais se extravasa, mais dependente do alívio imediato se fica. São miniciclos dentro do grande ciclo que é o contra-o-sistema-way-of-life. Esses miniciclos são cada vez mais constantes pelo simples fato de que a sensação de alívio é cada vez mais necessária. É paradoxal a relação entre bater no sistema e liberdade, já que todas as válvulas de escape aparentemente te aprisionam. Muitas vezes tudo acontece ao mesmo tempo e de forma irreversível. E a vida, num sentido “saudável”, se dá pelos moldes do sistema. É um “prenda-me se for capaz” até você querer ser preso. Realmente paradoxal.

Irvine Welsh - TrainspottingEntre casos de internação, detenção, HIV, amputação, morte, reabilitação e rendição, existem clamores muito grandes quanto à revisão imediata dos pilares culturais que são tomados como senso comum. Alguns protestam escrevendo textos no facebook, outros protestam escrevendo livros, corajosos punem o sistema com o próprio corpo. É assim que Rents passa o livro todo tentando se afastar da heroína e continuar no seu protesto, recebendo cinco benefícios de seguro-desemprego através de um esquema maroto para fraudar o governo. Mas ali no quintal de casa, em Leith, é impossível (como eu havia dito, o ambiente suga o personagem o tempo todo). Os ciclos de Rents são cada vez mais curtos, até uma overdose. Ele chegou ao limite. Mas sabe que em Leith não conseguiria ficar limpo. Se muda para Londres, sem pressões e inserido no sistema, e se estabelece plenamente.

Spud, Begbie e Sick Boy não chegaram ao limite, talvez nunca tenham tempo de reconhecer o limite. Viver no limite tem dessas coisas. Spud é um ladrão com muito potencial e viciado, Begbie é o valentão mais valentão do mundo e bem cheio de si, Sick Boy é o zé bonitinho da galera com faro para negócios escusos. São dezenas de vidas que se misturam. Todas elas buscando uma liberdade que o sistema não dá, então a tomam à força. Eles pagam o preço, claro. O corpo cobra, o tempo cobra, a sociedade cobra. Mas e daí? Eles construíram a própria liberdade. Ou simplesmente estão presos, mas na prisão que escolheram estar. E isso não é liberdade? Eu, sinceramente, não faço ideia da resposta e acho que levaria uma vida para chegar numa argumentação plausível.

O Matty, depois que terminou com a Lizzie, se afundou na heroína até a morte. Maldito show do Iggy Pop. Eu compreendo Matty no seu sofrimento e no seu querer. Não o seguiria ou incentivaria, mas o compreendo. Rents também o entendeu. E essa é só mais uma das vidas que se cruzam toda hora em Leith, esse lugar sagrado. Ou amaldiçoado. Tudo depende de como se vê o sistema.

2 comentários em “Irvine Welsh – Trainspotting

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  1. Bela análise! Poucas obras conseguem investir contra a crença no “sistema” (ou pelo menos a vaga concepção do que é isso em que estamos inseridos) de um jeito tão certeiro. Ainda estou terminando, mas estou achando, como você disse, sujo (e o que é a higiene senão o grande pilar da existência civilizada e, logo, do establishment?). Um soco!

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    1. Cada estrutura do livro é o avesso de algum ponto do sistema. Essa foi a minha maior resenha aqui, eu acho, e ficou muita coisa implícita para justamente eu não ter que dissecar cada ponto que eu reparei ao ler. Mas esse ambiente extremamente sujo e lúgubre acaba se tornando algo convidativo dentro do contexto. É bizarro de tão bom.

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