Tenda dos Autores – Parte 02|FLIP 2016

Por Caio, Pedro, Patrick, Flor, Yumi, Paula e tô com preguiça. Depois passo a senha e daí tu inclui o nome aqui, já é? Já é.

Qual é a da parada, rapeize? Vamos continuando os trabalhos falando das outras mesas que cobrimos na Tenda dos Autores. Se liga só:

01/07 – Sexta-feira – 10h|mesa 7: Breviário do Brasil

Benjamin Moser e Kenneth Maxwell

Meu amigo Pedro Mário, que estava com uma flor de pessoa, deu o papo: é um tanto difícil discutir o atual momento da Terra de Vera Cruz em pouco mais de uma hora. Mas esses dois caras são corajosos e botaram a cara no sol pra falar o que eles conseguem concluir lá de fora. Ou seja, NADA. E não é brincadeira, não. Eles falaram várias paradas certas, mas nada que não saibamos. Lógico que esse ponto de vista de fora desenvolve alguns conceitos. Mas deu pra perceber que é muito difícil interpretar o que tá rolando por aqui.

Uma tarefazinha ingrata, cara. Existem muitos Brasis dentro do Brasil. É um país difícil de explicar em anos, imagine numa mesa. A única coisa que fica evidente é a perplexidade quanto ao colapso político que vivemos. Na verdade, os colapsos políticos são recorrentes por diferentes motivos e cada geração tem suas esperanças perdidas. Apesar do olhar racional e da defesa ferrenha pelo término dessa história de “complexo de vira-lata”, é muito evidente que não há resposta de fora para o que acontece por aqui. As indignações parecem ser gritantes demais para que haja espaço para soluções, visto de dentro ou visto de fora.

Um lance bem irado é explicar o conceito da criação de Brasília e é bem real essa parada. Viajei por horas nisso. Os governantes ficam totalmente isolados. Que bizarro isso, cara. Os caras não temem o povo porque nada chega até eles. E a gente aqui batendo panela…

Enfim, é uma mesa que ajudou a observar o que rola por aqui através de um view gringo, mas não foram novidades. Foram pontos de vista mais aprofundados e sob uma ótica não usual, o que é bom também. Tá valendo.

01/07 – Sexta-feira – 15h|mesa 9: O show do eu

Christian Dunker e Paula Sibilia

Ousadia e alegria. É a espetacularização do cotidiano. A necessidade de se autopromover é cada vez mais forte e explorar os limites disso é muito importante. O livro da Paula dá o nome à mesa. Ela, inclusive, lança os tópicos da mesa mais que a mediadora. Já disse, ousadia e alegria.

Mas o papo é bem sério agora. Qual o poder adquirido através das redes sociais e de toda essa onda digital que deixa confortável e natural essa necessidade de expor o privado? Afinal, quais são os novos limites do público e do privado? Com a tecnologia os conceitos se misturam, até.

E a validade dos argumentos sobre esse tipo de doença tecnológica interferem até no modelo de escola que temos, cara. É agressivo estar nos moldes atuais da escola. As ocupações são um retrato disso.

O deslocamento do eixo que constrói o que nós somos (ficou poético isso, cara) sai de valores interiores para valores exteriores sem qualquer tipo de filtro, o indivíduo passa a ficar muito vulnerável porque perde a subjetividade. Então o vazio criado gera uma série de novos problemas. Os males do novo século. Daí você faz assim: senta, absorve, chora, reflete, chora, pensa na vida, chora, olha no espelho, chora e daí bate palma.

01/07 – Sexta-feira – 17h15|mesa 10: Encontro com Karl Ove Knausgard

Então, o cara chega aqui no Brasa cheio de fama, com uma das obras mais aclamadas dos últimos anos e geral querendo ouvir o que o caboclo tem pra falar. Esse lance da FLIP de “Encontro com” foi uma jogada de risco, mas que deu certo. A mesa do cara foi um sucesso. Eu fiquei muito na pilha de ler a série do cara ali na hora.

A história dele com o pai, o que deu assunto para que escrevesse a série “Minha Luta”, é uma parada bem cabulosa. Uma juventude reprimida em todos os sentidos. Família religiosa e tal. Pra ter uma ideia, o amigo explana que tocou uma só aos dezenove anos. É irmão, as coisas não são fáceis na família tradicional norueguesa.

Mas duas paradas me incomodaram. A primeira é que o cara, para compensar toda a repressão, timidez e sei lá mais o que, tem uns devaneios meio megalomaníacos, saca? Meio que o Exodia (entendedores entenderão) dentro daquele mundo que ele enxerga (e vive). Pode ser impressão, mas isso cortou essa vibe bacana de aproximação entre autor e leitor, convidado e público, que eu tanto falei por aí.

Outra parada foi a Cia. das Letras que avacalhou com os autógrafos. Eu não faço questão de assinatura de ninguém, mas vi muita gente bolada porque só receberam uma rubrica e nem contato com o autor tiveram. Um aperto de mão não mata ninguém, po. Tudo bem que o cara deve ter n compromissos, mas e a galera pega fila, paga caro no livro e cria expectativa por um rabisco do cacique da Noruega? Não concordo muito com essa parada não, na boa.

01/07 – Sexta-feira – 21h30|mesa 12: Sexografias

Gabriele Wiener e Juliana Frank

Manja quando eu falei dos mediadores que estragam tudo? Toma outra dose aí. O cara deu umas trezentas bolas fora. A pior delas foi insinuar que a Gabriela Wiener é pervertida por praticar o poliamor. Faltou cara pra ficar vermelha. Vergonha alheia total.

A leitura intercalada dos trechos dos livros das duas convidadas foi bem fraca. As duas atrizes se confundiram, erraram no tom e deixaram as coisas bem sem sal. Prelúdio de um desastre.

Em se tratando da mesa, depois do ano passado a expectativa estava como? Lá no alto. Geral saindo da Tenda dos Autores direto pra pousada e tal. Mas aí convidaram a Juliana Frank, que escreve livros eróticos e é bem descolada. A Juliana roubou a cena desde o primeiro momento pelo simples fato de aparentar viver num mundo anos luz à frente do nosso. Vida avançada total. A mina a cada pergunta viajava para um mundo totalmente dela. O problema é que ninguém tinha acesso. O pior é que ela começava bem as respostas, criava aquela expectativa na galera. Mas daí o caldo entornava e, ou a gente ficava puto, ou ria. Eu, particularmente, me diverti demais. Quero muito usar o que ela usa ou aprender a elevar meu espírito dessa maneira. Meta da vida é ler os livros dessa mulher, na moral.

A Gabriela ficou intimidada, mas depois mostrou a que veio. Pena que isso rolou faltando cinco minutos para acabar a mesa. Mas deu pra sacar qual é a dela e fiquei muito interessado no seu trabalho.

Era uma mesa que tinha tudo para ser um sucesso absoluto, mas causou vergonha alheia por vários motivos. FLIP, qual o seu problema com as mesas que deveriam ser polêmicas?

Ô Yumi, ô Paula, o que é o brechó?

02/07 – Sábado – 10h|mesa 13: Encontro com Leonardo Fróes

Sempre que perguntarem se esse tipo de mesa “Encontro com” deu certo, usem essa mesa com o Fróes. Que cara bacana. Na boa. Vontade de chama-lo para tomar um café e ficar ali papeando com o cara, só ouvindo as experiências dele. Tranquilão no baile.

O cara é o homem natureza e baseou sua poesia nas experiências transcendentais de sua jornada que já rodou o mundo inteiro. Numa escalada ou na horta de casa, tudo inspira Fróes. A natureza lhe é íntima e compõe cada cenário da sua poesia.

É incrível as relações que ele faz entre a natureza e a política, até. O cara é de uma sabedoria absurda. A simplicidade no modo de ver a vida. Manja quando tu olha pra pessoa e vê uma pessoa realizada? Isso dá maior satisfação, não dá? Então, esse é o poeta Leonardo Fróes.

Cara, pare e ouça. Vai lá. O cara é demais e participar disso foi mágico!

02/07 – Sábado – 12h|mesa14: De Clarice a Ana C.

Benjamin Moser e Heloísa Buarque de Hollanda

“Se Heloísa descobriu Ana C., Benjamin redescobriu Clarice”. Essa frase resume a mesa, né? Tá bom, posso ir embora, tchau. Sacanagem. A parada é que traçando um perfil dessas duas escritoras, há uma questão interessante e eu acho que seja o motivo de terem elaborado essa mesa. Ambas, Clarice e Ana C., foram consumidas pela literatura que produziram. É uma obsessão que só cresce a partir do momento que você produz mais. Clarice tem uma vasta obra e Ana C. tem um legado curto, mas muito imponente. Essa obsessão das duas pode ser percebida, bem como os efeitos dessa compulsão pela literatura que produziram. Isso abre o prisma de significados que toma uma das frases preferidas de Ana C.: “o poeta é um fingidor”.

Questões religiosas, de gerações e da própria vida, vão afastando as duas, mas a obsessão pela literatura as une com uma força brutal. O envolvimento passado para o leitor ao lê-las é onde elas se encontram no panteão das gigantes da literatura.

Ressalto o total preparo da mediadora, que conduziu a mesa de forma divina. E os convidados que são duas almas iluminadas e profundamente conhecedoras das duas autoras. Mesa pra não botar defeito.

02/07 – Sábado – 17h15|mesa 16: Encontro com Svetlana Aleksiévitch

O que falar da Veveta? Não é à toa que ela teve que dar quase mil autógrafos, coitada (Cia. das Letras prejudicou a galera de novo com a organização, quase teve treta). Conquistou o coração de geral. Uma recém-premiada com o Nobel de Literatura em Paraty. As expectativas eram estrogonoficamente altas. Aí ela chega naquele jeito manso de ser e deixa todo mundo com a cara no chão ao dar uma aula de humanismo, empatia, história e amor.

Ela veio por conta do Vozes de Tchernóbil, título que a fez ser premiada, mas ela escreveu cinco obras acerca do período que abrange o fim da Segunda Guerra e a queda da URSS. A essa reunião de cinco pontos de vista diferentes, ela chama de Vozes da Utopia. Na moral, uma mulher que lança uma série sobre esse período e batiza sua série como VOZES DA UTOPIA. Precisa de mais alguma coisa?

Dois volumes já foram lançados pela Cia. das Letras (paga nóis pelo merchan, po) e eu já os devorei (em breve resenhas, mês da FLIP e tal). Os outros devem sair ano que vem. Só façam o seguinte: procurem a mesa no YouTube, assistam, caiam de amores, comprem os livros, leiam freneticamente e consumam tudo que essa mulher produz. Que coisa maravilhosa.

Ela é a verdadeira resistência nesse mundo, cara. Na boa, máximo respeito pela Veveta. As definições de “homem vermelho” e “homem consumo”, ela dissertando sobre liberdade. Aaaaah, vou parar por aqui. Vão caçar a mesa e ganhar uma hora de vida.

02/07 – Sábado – 19h30|mesa 17: O Falcão e a Fênix

Helen Macdonald e Maria Esther Maciel

Eu quero ler F de Falcão, e acho que quero ter um falcão só pra pegar os trejeitos dele e ficar assustando o público quando me convidarem para a FLIP algum dia.

Foi uma mesa surpreendente. Tanto que nem estava na minha programação. Mas a Helen tem um talento para falar em público e seu relacionamento com seu falcão é uma parada muito bonita.

A brazuca tomou chá de Juliana e, numa mistura de nonsense total e academicismo avançado, deu umas escapadas na hora de fazer a curva. Algumas onomatopeias foram irresistíveis e rolou uma aulinha de história bem maneira. Chá de Juliana tem poder.

Mas a mesa, num contexto geral, foi bem bacana. O vinho de 10 conto tava bão também!

02/07 – Sábado – 21h30|mesa 18: O palco é a página

Kate Tempest e Ramon Nunes Mello

A grande surpresa da FLIP para mim e, presumo, para a crítica, foi a britânica Kate Tempest. Eu já ouvi uns trampos dela com rap, mas nem me ligava que ela estava escrevendo. Ainda bem que ela está escrevendo, cara! Escreve muito! Que presença e que palavras. Ela põe muito sentimento em tudo que faz e dá um show.

O Ramon estava ali só esperando a deixa dele e marcou boa presença também. O lance de revelar que é soropositivo foi surpreendente para uma boa galera no telão. Mas é mais uma daquelas aulas que a poesia insiste em dar: o maluco escreve com tanto amor, de forma tão bonita, que esse distanciamento que a frase “eu tenho aids” provoca, virou pó.

Ambos falaram muita coisa sobre a representatividade da arte num contexto de quebrar preconceitos e estigmas sociais. Mas acho que a Kate resumiu bem a função da poesia em essência: “a poesia nunca está completa se não é compartilhada, se ninguém a ouve. O trabalho da poesia só se torna completo quando atinge um receptor”.

A poesia agradece a presença dos dois fechando o glorioso dia de sábado. Foram mais que excelentes ao cumprir o seu papel.

P.S.: Só a Yumi teve grana pra levar o livro da Kate, cobrem resenha dela.

03/07 – Domingo – 10h|mesa 19: Síria mon amour

Abud Said e Patrícia Campos Mello

A Patrícia chegou falando da experiência dela como correspondente de guerra e empolgou. Logo na primeira pergunta ela já fez um link com vários assuntos, como sensacionalismo da imprensa em cima da imagem do menino Aylan Kurdi, o menino refugiado encontrado morto na praia que virou manchete no mundo inteiro, e extremismo religioso. Mandou bem demais. Domingo de manhã, cheio de ressaca, mas estava eu lá cheio de disposição. Pensei comigo assim que ela acabou de falar “sáparada vai ser como, quente”.

Aí o querido mediador, que levou um baile da Juliana (Drunk) Frank, tomou outro baile. O Abud, o cara mais esperto do Facebook (deixa nóis promover a página de graça), só falou o seguinte: “Eu não sou escritor. Uma alemão encontrou meus textos no Facebook, pediu para traduzir e eu fui morar na Alemanha. Agora me convidam para eventos como a FLIP, num hotel cinco estrelas e ontem fiquei três horas na sauna. Então isso é o que importa para mim. O confronto na Síria não tem a ver comigo. Eu, particularmente, não me importo e não vou responder sobre a Síria. Então não me façam perguntas sobre a Síria que eu não vou responder.”.

A mesa acabou! Aguentar uma hora dessa ladainha desse Sírio mequetrefe anulando uma baita jornalista é brincadeira. Todo mundo constrangido. Eu fui embora após ele fazer a comparação entre o profissionalismo alemão e o brasileiro, num discurso cheio de preconceito. Bola fora total. Pior mesa da FLIP de longe.

“Ei, Abud, vai tomar café”, gritava a plateia ensandecida ao desejar que Abud ficasse pobre instantaneamente.

03/07 – Domingo – 12h|mesa 20: Sessão de encerramento: Luvas de pelica

Sérgio Alcides e Vilma Arêas

A mesa mais bonita da FLIP. O Sérgio é crítico literário e estudioso de Ana C., a Vilma foi professora e amiga da mulher. Era para ser uma mesa técnica pra caramba. Mas veja do que excelentes professores são capazes. Ao esmiuçar Ana Cristina Cesar para o público, eles tornaram sua obra cada vez mais humana. A cada camada de Ana C. eles explicavam tecnicamente tudo o que eu senti lendo. Algo absurdo e surpreendente para mim.

E, do nada, Ana Cristina ficou entendível para todos. Sérgio foi muito feliz ao falar das referências perdidas na poesia de Ana C. e em como faz bem não reconhecer todas as referências. Essa é a mutação da poesia dela e o que há de eterno em sua obra. O segredo, a provocação, o íntimo e a aproximação com o receptor da mensagem, independente do sentido dado às palavras.

Vilma foi pela mesma linha e ainda disse mais sobre como Ana Cristina tinha esse poder de provocar e de fingir, na sua escrita, diversos estados da alma. Essa capacidade de mover palavras e deixar sensações implícitas é algo extremamente difícil e literário.

Enfim, vale a pena ver de novo. Vejam! É de aplaudir de pé todas as vezes.

E quando Vilma lê o poema de Cacaso para Ana Cristina, escrito após seu suicídio. Aquilo é a magia da literatura. Aquilo é amor. Sintetizou o que foi a mesa e encerrou a FLIP 2016 com chave de ouro. Ver pessoas que não faziam ideia de quem era Ana Cristina César antes da FLIP saírem chorando copiosamente é a prova viva de que o legado da autora é eterno. Que espetáculo! Que coisa linda!

É isso, meu povo! Essa foi a cobertura redondinha que o Rede de Intrigas fez da Tenda dos Autores. Nem mencionamos a Mesa 21: Livro de cabeceira, porque ficar falando de escritor lendo enche o saco. Muito chato isso.

Aguardem que agora vem as outras mesas, o que achamos nas ruas e uma colab com a Yumi e a Paula, queridas demais, do blog Me formo em 2080. Chora, que esse é só o começo!

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