Tenda dos Autores – Parte 01|FLIP 2016

Por Caio Lima e Pedro Mário

Que mané diário o quê! A parada é a seguinte: dividi a cobertura pelas áreas diferentes que fomos. Assim consigo captar melhor o clima de cada lugar e não tenho que ficar me repetindo todo a cada texto que lanço.

Então, meus queridos companheiros, a Tenda dos Autores é onde acontecem as mesas principais, com os temas fechadinhos e aquele glamour de evento literário. Tem café-bom-e-caro com pão-de-queijo-ruim-e-caro (complicado isso aí, organização), o estande dos autógrafos e, claro, a livraria. O telão tá bem melhor, o sistema de som não judia mais dos ouvidos da gente e tiraram aquelas televisões onde as pessoas se aglomeravam pra assistir e impediam a circulação da galera. Agora lá estava uma bela exposição de fotos da Ana Cristina César e ficou um corredor bem bonito, convidativo.

Um ponto positivo foi que realmente as mesas foram mais pé no chão, chamando a galera, com os temas elaborados justamente para isso, igual eu havia falado lá na prévia. Isso foi bacana pra caramba e trouxe o público pra perto. Fez com que a gente se sentisse abraçado, protegido e quente. Brincadeira. Mas isso reduz o distanciamento e o sentimento de onipotência que é criado por quem obtém a cultura e quem está buscando obtê-la.

Outro ponto foi que a presença feminina foi muito mais sentida. Ainda foram chamados mais homens que mulheres, mas todo o tempo o assunto era a mulher, encabeçadas pela Ana C., Clarice e a Svetlana (Veveta para os íntimos, Lana para os chegados). Muita força feminina mesmo!

A questão de lidar com poesia marginal e ter essa força feminina atuante durante toda a festa amplificou a sensação de subjetividade que tem os sentimentos e em como isso se desenvolve no contato de pessoa para pessoa. E porque falar nessa filosofia toda? Por causa dos autores independentes, de rua, que vieram em profusão. Muita gente nas ruas divulgando seus trabalhos. Poesia, prosa, cordel, música, pintura, artesanato e até meus concorrentes com o manuseio do cobre para artesanato. As ruas tiveram voz, finalmente. Manifestações artísticas espontâneas em todas as esquinas. A rua voltou a ser palco de uma festa em Paraty. Isso me soa irônico, já que toda festa em Paraty é na rua. Mas é isso mesmo.

Um passo importante foi a abertura para editoras menores entrarem no game do mercado editorial de grandes festivais literários. É óbvio que as grandes oligarquias editoriais ainda dão as cartas e mandam na cena, mas já vi uns livros hipsters tendo seu destaque lá na livraria, sendo referências de algumas mesas. Isso é um avanço. Espero que isso seja intensificado.

Outra parada muito ligada à poesia marginal é a manifestação política. A arte marginal é ligada à política. Não tentem separar isso. E foi muito importante ver isso ressoar nas ruas. Rolaram manifestações, rodas de conversa, teatro, música e os próprios autores deram suas cartas na mesa principal. Infelizmente quem deu voz a isso não foi prestigiado com lugares de destaque na programação da FLIP, mas rolou. É importante que role sempre. Literatura é arte e arte é liberdade de expressão.

No entanto, as comunidades negra e indígena, e a própria cidade de Paraty, não foram representadas. Ficou um vazio ali que ninguém soube explicar. Vai rolar texto sobre isso aqui e outros problemas que notei na organização. Mas fica o aviso: é melhor essa organização da FLIP se mover já para a próxima edição. Errou feio, errou rude demais.

Outro lance que é bem rude é o preço dos livros. Será que não rola um acordo de desconto progressivo pra galera? Tudo bem que esse ano a livraria estava o fervo e tal, mas livros ainda são caros e consumir os autores que conhecemos ali na FLIP se torna algo inviável. Fica a sugestão pra Travessa parar de traquinagem e começar a agir direito com a galera desprovida de cash. Aqui não rola cash em racks on racks on racks, homie.

Por falar em “racks on racks on racks”, a poesia marginal trouxe mais música pra FLIP. Incrível como música e literatura se confundem, pelo menos comigo. Com vocês não? Pena. Em cada esquina rolava uma parada diferente e várias misturas de improviso. Que bonito de ver!


Agora vamos ao que interessa. Chega de palhaçada! Direto da Tenda dos Autores (naipe Miguel Fallabella no Vídeo Show naquele quadro “Direto do túnel do tempo”) vão minhas breves impressões:

29/06 – Quarta-feira – 19h|sessão de abertura: Em tecnicolor.

Armando Freitas Filho e Walter Carvalho.

A vida é um filme mal filmado. É uma frase emblemática. Uma mesa visionária sobre poesia e cinema, palavra e imagem. Assim, Godard, por exemplo, poderia muito bem ser colocado como um grande poeta ao invés de cineasta e Armando é um grande cineasta ao invés de poeta, que quando escreve “uma gaivota passa riscada a lápis” deixa tudo extremamente visível. A sinergia entre Armando e Walter é notável e a conversa foi leve, espontânea e solta acerca de como capturar a imagem de um poeta. Todas as homenagens ao Armando são merecidas. O cara é bom demais. Mas aí entra o fator Ana C.. Saca que essa é a mesa de abertura de um evento que essa mulher é a homenageada? Foi muito bonito o Armando tentar recriar a imagem dela através da simplicidade dos seus argumentos, mas ficou aquela sensação de que ele economizou demais nas palavras. Da mesma forma que economizou no prefácio que escreveu para o livro “Poética” (já resenhado aqui). Entendo que deve ser difícil recriar a imagem de alguém que foi tão querida e íntima para um público tão curioso dos porquês, e que o Walter Carvalho entrou nessa barca furada junto ao querer saber como funciona o cotidiano e como se dá o processo criativo do poeta. Mas… não dá pra aliviar. A mesa foi bonita, mas faltou Ana C.!

30/06 – Quinta-feira – 10h|mesa 1: A teus pés

Annita Costa Malufe, Laura Liuzzi e Marília Garcia

Uma mesa sutil, querida e forte! As três poetisas deram um show e se mostraram muito à vontade ao falar de suas obras, claro, e principalmente da poesia de Ana C.. É sempre muito importante falar em questões de gênero dentro da própria arte, de desconstrução e de destituir estereótipos. Ana C. fez isso tudo em sua curta obra e as três tiveram a sensibilidade de tratar isso de forma muito espontânea, além de incluir esse elemento na construção de suas próprias obras.

Ana C. também foi transgressora na forma de sua poesia, implodindo padrões para explodir a cabeça dos críticos literários. Seus cortes bruscos e seus versos extremamente claros trazem uma afirmação feminina, uma idealização de um espaço que a mulher deve preencher. A quebra de estereótipos é outro ponto que só pode ser traduzido em confusão para os leitores, entendedores e admiradores da homenageada.

Por fim, Laura Liuzzi resume muito bem o que é a poesia e aonde a poesia quer chegar ao traçar o seguinte paralelo: poesia é documentário, o romance é ficção. Poesia é o íntimo, o real, o ideal. Mesmo quando lançado de forma subjetiva, ele é atraente pelas dimensões da realidade que nos fazem observar. A arte respira na forma dessas três mulheres.

30/06 – Quinta-feira – 15h|mesa 3: Os olhos da rua

Caco Barcellos e Misha Glenny

É meio ridículo que dois caras sabichões do submundo do crime organizado, excelentes escritores e extremamente reconhecidos por tudo isso tenham que passar meia fucking hora explicando o ambiente das grandes cidades, o que acontece quando o Estado não consegue atender parcelas grandes da população e quando o Estado fica a mercê de outra parcela bem menor, mas mais abastada. É mais ridículo ainda pelo fato da mesa durar pouco mais de uma hora. Mas aí entra a questão de que é preciso fazer assim, dessa forma. A parada é que os dois são tão bons, que essa meia hora foi muito boa e os trinta minutos finais foram melhores ainda.

Tratar o jornalismo investigativo como os olhos da rua, esse é o cerne da mesa. A questão é que no Brasil o jornalismo investigativo está minguando. Misha, ao reviver o debate sobre a romantização de um fora da lei com a biografia do Nem, joga na face da imprensa brasileira que existem pilares sociais muito bem fincados que são verdadeiros berços de caras como o Nem da Rocinha. Caco Barcellos havia feito isso com Marcinho VP, em O Abusado. Dissecar esses pilares é função de vários departamentos, mas mostra-los através da lente mais real possível é função do jornalismo.

Essa mudança de ponto de vista denota as graves falhas latentes do jornalismo brasileiro, principalmente do jornalismo investigativo. Denunciando uma imprensa que trabalha partidariamente, selecionando e picotando os fatos conforme seus interesses. Os veículos de comunicação deixaram de ser os olhos das ruas e passaram a servir como escudos de interesses. Essa inanição do jornalismo faz com que setores totalmente alheios à comunicação exerçam esse papel, exemplo do Ministério Público. Lógico, todos com seus interesses e compromissos.

O exemplo do Caco Barcellos com a empregada doméstica que mora na favela e trabalha na casa de uma patroa rica é fenomenal, até pela sua simplicidade. A empregada convive em mundos paralelos, sabe como os dois sistemas funcionam. A patroa só conhece aquele mundo, a informação que chega até ela só diz respeito a aquilo que ela já convive e conhece. É uma cegueira crônica que foi institucionalizada. Uma das melhores mesas da FLIP, de longe. Não me alongarei mais, porque tem o áudio da mesa no YouTube oficial da FLIP, então ouçam lá! Já!

30/06 – Quinta-feira – 21h30|mesa 6: Na pior em Nova York e Edimburgo

Bill Clegg e Irvine Welsh

A grande decepção da FLIP 2016 para mim. Na boa, me expliquem o que foi aquele mediador, por favor? Até agora não saquei qual foi a dele. Que vacilo, na real. O cara me pergunta para o maior ícone literário da contracultura o porquê dele escrever de uma forma coloquial? Metade da mesa foi embora na segunda pergunta, particularmente, ridícula que o amigão lá fez. Depois de ver o Irvine Welsh dar um show lendo um trecho do seu livro e me fazer acreditar que eu ia pirar assistindo essa mesa, um balde de água fria. Que pecado. Mas mal eu sabia que essa não seria a primeira mesa levada de forma tão escrota pelo mediador…


Esse é só o começo de uma série de posts sobre a FLIP que deve durar o mês inteiro. Se liguem que vai rolar muita coisa diferente pra gente, mas cobertura é cobertura e também temos que mostrar o que rolou de convencional e todos os veículos de comunicação já mostraram pra vocês, mas com a ótica da gente. Prepara o lombo, abestado!

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