Prévia FLIP 2016

Por Caio Lima

Com o passar dos anos, a FLIP perdeu o viés popular que uma festa literária deveria ter, pelo menos na minha humilde forma de pensar. E com a crise isso ficou muito (MUITO) evidente ano passado. Artistas de rua sumiram e as manifestações espontâneas também. Isso tira muito o brilho de uma festa situada numa cidade onde tudo acontece exatamente nas ruas. A festa esvaziou, pois o grande público não se sentiu atingido. Até na livraria estava tranquilo de ir, com estantes organizadas e sem empurra-empurra.

A FLIP 2016 tenta trazer novos ares à festa. A primeira nova abordagem já é muito surpreendente ao homenagear Ana Cristina César. A figura de Ana Cristina César na literatura é emblemática, apesar da sua história reduzida.

Ao homenagear Ana C. há a volta de uma mulher como referência da festa após mais de uma década. E o que isso representa para FLIP em si? Ana C. é uma mulher forte e isso abre mais brechas para continuar a alimentar a discussão acerca da importância da mulher na literatura. É uma preocupação do evento e sempre me são reveladas excelentes autoras em excelentes mesas.

Mas Ana C. traz consigo uma bagagem muito maior do que ser apenas uma poetisa das boas. Ela é um ícone da poesia marginal. Pelos meus poucos lidos, lançava seus livros em “folhetins”, tendo somente sua obra máxima, A Teus Pés, lançada por uma grande editora e com boa tiragem. E carregando essa responsabilidade de trazer a poesia marginal, a FLIP tenta aproximar o grande público da literatura. A organização estava pragmática demais. Mas esse ano promete mudar.

Na busca de recuperar o fôlego, a FLIP diversificará suas mesas como nunca, mas fica bem explícito outro intento da curadoria da festa: tratar dos males da alma. A saturação do cotidiano gerada pelo estresse, a ansiedade, a depressão e todas as mazelas que caracterizam os anos 10 serão abordadas à luz de múltiplos pontos de vista. Além de autores, teremos médicos, cientistas, jornalistas, cineastas e entusiastas que abraçarão essa temática. A combinação entre literatura marginal e os males da alma parece ser um tiro certeiro para atrair a atenção do público como um todo, mesmo nesse momento de crise.

As mesas foram distribuídas para desmembrar um tema tão amplo e complexo, criando uma atmosfera convidativa que embasa o construtivismo que me aparenta ser pretendido pela organização da festa. Então aspectos pessoais, sociais, históricos, geográficos e clínicos tem o papel de se unir para criar não só o ambiente de festa literária. Mas essa temática tem a necessidade da interação do público. Essa aproximação das mesas com situações tão reais e a participação muito mais incisiva do público formam uma boa ferramenta para trazer a festa a uma esfera mais popular e seguir um caminho bem diferente de edições anteriores.

Eu não me lembro de ter visto uma FLIP tão redondinha, tão preocupada em trabalhar um tema através de todos os focos possíveis sem se perder por nenhum momento do que é a festa literária. A nova visão e formato permitem a inclusão, a troca de experiências e aparentemente a FLIP perde um pouco essa cara de evento formal, cult e elitista.

E dentro de todo esse contexto eu vou passar a minha programação de mesas para a FLIP 2016 e comentar o que eu espero dessas tais. Acho que 90% das mesas serão muito boas, mas quero tirar um tempo pra dar uma olhada nas ruas de Paraty esse ano. Já que vamos falar de literatura marginal, quero ir direto à fonte. Vamos lá!


29/06 – Quarta-feira – 19h|sessão de abertura: Em tecnicolor.

Armando Freitas Filho e Walter Carvalho.

Armando Freitas Filho era colado com Ana C. (a moça dedicou seu principal livro para o carinha, apenas). Não preciso falar muita coisa além de que ali vai rolar um verdadeiro apanhado da vivência da homenageada da FLIP 2016, introduzindo de uma maneira muito pessoal o impacto literário de Ana C. e da poesia marginal como um todo. Walter Carvalho, para quem é do meio, é unânime. Acabou de fazer um documentário sobre o poeta Armando. Vem enriquecer a mesa. Uma mesa de respeito para começar bem a FLIP 2016.

30/06 – Quinta-feira – 10h|mesa 1: A teus pés

Annita Costa Malufe, Laura Liuzzi e Marília Garcia

Três poetisas de primeira contando suas experiências baseadas no livro mais famoso da homenageada da festa. Vivência pura! Experiência muito válida para conhecer literatura contemporânea e os meandros do mundo literário para novas autoras brasileiras.

30/06 – Quinta-feira – 15h|mesa 3: Os olhos da rua

Caco Barcellos e Misha Glenny

Bom, eu já li Rota 66 e O Abusado, do Caco. São dois livros sufocantes e que expõem o que é o submundo das cidades. A qualidade do seu trabalho é irretocável e ele tem na sua história como repórter a sensibilidade de dar voz aos que vivem à margem. Ele, por si só, já faria uma baita mesa. Mas como se não fosse o bastante, vem o Misha Glenny e sua biografia do traficante Nem, da Rocinha, conferir ainda mais peso à discussão. Mostrando a importância conquistada por sociedades clandestinas dentro de Estados deficientes, será uma mesa para abrir (leia quebrar) a cabeça e desconstruir preconceitos. Excelente!

30/06 – Quinta-feira – 21h30|mesa 6: Na pior em Nova York e Edimburgo

Bill Clegg e Irvine Welsh

Contracultura. Essa mesa promete. Irvine Welsh escreveu um dos maiores clássicos da rebeldia urbana, um grito contra o sistema. Bill Clegg começou a se aventurar na escrita agora tratando justamente da depressão causada pela sociedade e suas amarras. As formas expostas pelos dois autores para quebrar isso tudo são drásticas e consideradas não saudáveis levando em conta um pensamento convencional. Mas de convencional essa mesa não tem absolutamente nada. Ainda bem! É pra encerrar o dia com um sentimento de vazio e cheio de reflexões existenciais. Quem me conhece, sabe que essa mesa eu não perco por nada. FLIP apelou!

01/07 – Sexta-feira – 10h|mesa 7: Breviário do Brasil

Benjamin Moser e Kenneth Maxwell

Dois gringos que se amarram no Brasil. E, pasmem, possuem um nível absurdo de compreensão do que está rolando por aqui. Esse olhar de “quem vê de fora” é importante e necessário para algumas reflexões. Descobrir o que esses dois viram de tão especial no Brasil também é algo bem legal. E, por fim, Moser escreveu a biografia de Clarice Lispector de forma primorosa. Excelente começo de dia.

01/07 – Sexta-feira – 15h|mesa 9: O show do eu

Christian Dunker e Paula Sibilia

Uma mesa mais técnica, mas não menos importante ou interessante. Tratar da individualização que a tecnologia trouxe é muito importante. Os efeitos implicados disso na educação, mais ainda. A análise da necessidade da auto exposição e o crescimento contínuo do isolamento em atividades costumeiramente sociais devem ser temas abordados aqui. Coisa que me interessa muito. Mesa pra ligar o sinal de alerta da galera.

01/07 – Sexta-feira – 17h15|mesa 10: Encontro com Karl Ove Knausgard

Karl Ove é um dos escritores com mais hype da atualidade por conta da sua série (seis livros!) de romances autobiográficos, Minha Luta (quatro já traduzidos pro Brasil). Dentro do que pude apurar, existem muitas tensões no seu relacionamento familiar e no modo como transfigura em atitudes a sua visão de mundo. E não é que há aí outra abordagem sobre os aspectos da alma? Acho que esse norueguês cheio de fama tem bastante coisa pra falar e é uma maneira de lançar um olhar mais atento para uma obra tão aclamada. Cheiro de coisa boa.

01/07 – Sexta-feira – 21h30|mesa 12: Sexografias

Gabriele Wiener e Juliana Frank

Duas escritoras que cresceram explorando formas radicais na prática do sexo e surgiram da marginalidade, encarando tabus e mais tabus que o tema por si só (ainda não sei como sexo pode ser tabu!?) carrega desde os primórdios da nossa civilização. O domínio sobre o corpo, o inusitado e um bocado de sadismo, são os assuntos que irão permear a conversa e prometem incendiar a última mesa da sexta-feira. Bem oportuno encerrar o dia assim, aliás. Olha que FLIP ousada!

02/07 – Sábado – 10h|mesa 13: Encontro com Leonardo Fróes

O cara é um baita de um poeta, tá completando 50 anos de carreira e tá lançando livro em comemoração. É pra ver, ouvir, contemplar, aprender, aplaudir, comprar o livro, encarar fila, pegar autógrafo, pedir foto e postar no insta.

02/07 – Sábado – 12h|mesa14: De Clarice a Ana C.

Benjamin Moser e Heloísa Buarque de Hollanda

Uma mesa traçando uma linha entre as obras das duas únicas autoras homenageadas pela FLIP e dois dos maiores expoentes da literatura brasileira. Os participantes dispensam comentários pela qualidade e pelo conhecimento de causa. Vai ser uma tremenda viagem aos mundos e submundos literários. Uma mesa de excelência.

02/07 – Sábado – 17h15|mesa 16: Encontro com Svetlana Aleksiévitch

Ela só foi a Prêmio Nobel de 2015. Isso é pouco? Quer mais? Sério mesmo? As obras dela acabaram de chegar ao Brasil e ela vem apresentar seu trabalho que gira muito entorno do aparelhamento e desmonte da URSS. Promete ser uma mesa para arrancar suspiros.

03/07 – Domingo – 10h|mesa 19: Síria mon amour

Abud Said e Patrícia Campos Mello

Aulinha de história e geografia sobre um dos acontecimentos mais tristes e emblemáticos dos dias atuais, a guerra da Síria. Um Sírio refugiado na Alemanha e uma correspondente de guerra prometem lançar uma boa luz acerca dos acontecimentos com pontos de vista que vão um pouco além do que os grandes veículos se preocupam em mostrar. O domingo vai começar pesado.


Essas são as mesas que eu irei acompanhar com certeza, mas isso não descarta que eu me interesse pelas que ficaram de fora. Apesar de que essas aí já vão render bastante assunto…

Durante as próximas duas semanas o conteúdo do blog será todo direcionado por conta da FLIP. Vai rolar uma cobertura bacana e um material especial pra galera. Gostaram? Não? Porque não? Sugestões? Dúvidas? Críticas? Convites? Álcool? Tamo junto! Hahaha

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