José Donoso – O Lugar Sem Limites

Por Caio Lima

A discussão de gênero em plenos anos 60 até agora me parecia algo a ser abordado em grandes centros do mundo. É engraçado e estranho como o excesso de informações também pode te direcionar a núcleos e isso acaba criando estereótipos. Há uma espécie de seletividade na nossa própria desconstrução de preconceitos. É bem isso mesmo, acreditem. Olhamos para as minorias que estão no nosso meio comum, mas já pararam para pensar em quem vive nas mais diversas margens da sociedade? Em quem carrega diversos estigmas e tem de encarar uma sociedade que aponta o dedo para cada um deles? Em como deve ser uma mulher negra? Uma travesti pobre? Então, amiguinhos, pensem muito bem ao falar que são desconstruídos.

Daí me pego lendo um livro de um chileno, esse tal José Donoso, que conta a história dos medos de Manuela. Manuela é uma travesti quarentona, tem uma filha e administra um bordel que herdou após forjar uma relação sexual com a antiga dona, mas isso são outros quinhentos. Esse bordel fica lá em El Olivo. Sabem onde é isso? No interior do interior do Chile, onde as ruas eram de barro e nem energia elétrica tinha, mas estava pra chegar. Don Alejo, em toda sua onipotência, havia garantido.

“E quando ele me imobilizou com os outros homens, bem que me deu uns agarrões, não eram agarrões inocentes, então com a idade e a experiencia a gente não iria perceber? E furioso, porque a gente é bicha nem sei direito o que ele falou que ia fazer comigo. Quero só ver, sem vergonha safado. Me dá vontade de vestir a roupa de espanhola na frente dele para ver o que ele faz. Agora, por exemplo, se estivesse aqui no povoado. Ir para rua enfiada no vestido e com roupas atrás da orelha e toda maquiada, as pessoas na rua dizendo Oi, Manuela, Nossa, Que elegância, posso acompanhá-la? O maior sucesso, euzinha … E ai Pancho, furioso, me encontrara numa esquina e me disse você me dá nojo, vá tirar isso, você é uma vergonha para o povoado.”

A tensão da história é a chegada de Pancho ao vilarejo. Pancho é o maior algoz de Manuela pelo simples fato de há um ano ter rasgado seu vestido de espanhola que lhe caia tão bem. A agressão era o de menos, mas o vestido rasgado era imperdoável. Ao longo do dia, Donoso vai narrando com diversos flashbacks as intrincadas relações entre a ex-dona do bordel, Manuela, Don Alejo e Pancho. É uma velha história de dívidas e cobranças típica de uma vila situada na América Latina. E naquela noite haveria o desfecho desses desmembramentos todos.

José Donoso - O Lugar Sem LimitesPercebem em como o enredo é denso e recheado de questões para debatermos? Manuela é travesti e tem uma filha que a ajuda a cuidar do bordel. Manuela já não tem mais idade para esses desvarios e gera descrédito das suas próprias funcionárias: “se ela ao menos se depilasse”. Don Alejo é aquela velha figura que detém o poder da região toda, um coronel a quem todos recorrem nas horas de desespero. Pancho é o homem da história, o típico homem sem estudo, trabalhador e extremamente másculo, um estereótipo do homem do interior.

José Donoso foi valente ao lançar em 1967, às vésperas da “geração paz e amor” e demais movimentos, um romance que mostrasse a realidade dos preconceitos. Os grandes centros expuseram muitos conceitos que precisavam ser ouvidos. Mas ao ler a naturalidade da convivência com o medo e o quão normal é a violência usada para reagir ao diferente em Um Lugar Sem Limites, a sensação de que as palavras e os pensamentos não atingiram a quem realmente os sofre da forma mais espontânea possível é muito latente.

Ainda hoje, apesar de toda a rede vasta de informação que possuímos através da internet, somos extremamente desfocados ao que não nos é comum. A desconstrução é muito parcial e extremamente seletiva. Há quem defendas os gays, mas despreze os “viados”. Entendem a subjetividade desse desprezo? Isso é preconceito.

Donoso nos bate ao deixar evidente esse preconceito cego que atinge as grandes massas e que violenta todo dia quem vive à margem dos nossos olhos. Os limites se tornam inexistentes quando os estereótipos são naturais e os conceitos de certo e errado são excludentes dentro das próprias minorias. O pobre que olha torto e aponta o “defeito” de outro pobre por algum comportamento diferente se esquece de que ambos são pobres. Pior, se esquece de que ambos são humanos.

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