Quando Nós Elitizamos a Literatura

Quando conversamos sobre a necessidade da literatura ser algo muito além do entretenimento e da composição de uma vertente da arte, a colocamos como uma porta para novas dimensões. Então, identificamos na literatura um agente de mudança. Fazemos da nobre arte uma manifestação de ideais que nos sobram e uma fonte da qual bebemos tudo o que nos falta. Assim nos utilizamos da literatura para realizar modificações de comportamento, guinadas de atitude e como forma mais fidedigna e erudita de esclarecer a própria visão de mundo que possuímos.

Mas ao utilizar a literatura como uma ferramenta que propicie toda essa mudança que desencadeia muitas das coisas faladas aqui anteriormente, há a necessidade de que essa literatura, em todos os seus níveis, seja acessível. Ser acessível implica num passeio por diversos aspectos que vão da formação do mercado editorial, passando em como o sistema de ensino trata a literatura e a formação natural do leitor, em como chegam às referências externas através da sociedade e dos meios midiáticos e no que a literatura age e transforma através dos seus diferentes aglomerados e públicos de forma efetiva.

Ao falar de referências externas através da sociedade entramos no tópico passado, que é a interação que acontece de pessoa para pessoa, o famoso conversar literatura. É a maneira mais antiga e talvez, dentro do cenário atual, a abordagem mais válida e eficiente a ser utilizada para incentivar o conhecimento, se observado o crescimento exponencial de blogs e canais do Youtube para leitores. Essa abordagem faz um bem enorme ao desmistificar e apresentar de forma muito acessível alguns níveis e dogmas literários deixados de lado ou por serem muito complicados, ou por fazer parte de uma elite literária alcançada por poucos, ou por ambas as razões.

A questão é: quanto mais regulamos a ampla passagem de informação ou ideais para um público em comum, mais limitamos nosso próprio espaço, compreendem? Toda vez que nós fazemos questão de somente dialogar com pessoas que possuem as mesmas características, que nos são comuns, impedimos o crescimento do próximo e, mais importante (e absurdo) é que ceifamos nosso próprio crescimento.

Essa elitização da literatura acaba por sobrepor e oprimir esse contato pessoa-pessoa. E algo muito curioso é que as próprias “oligarquias literárias” possuem ramificações e desmembramentos completamente distintos e divergem entre si. Desta forma, há o próprio boicote entre ases do conhecimento literário. Claro que quando há um amplo conhecimento e vivência dentro do mundo literário, essa briga toda não passa de uma guerra de egos chinfrim e mesquinha. Mas as rebarbas disso tudo respingam em nós, reles mortais desbravadores do mundo literário sem lattes ou não-inseridos-no-meio-editorial-diretamente, com pouco conhecimento de causa. E isso é grave, muito grave.

Ao criar estereótipos para leitores dessa ou daquela escola literária, desse ou daquele autor de renome, afastamos instantaneamente milhares de leitores da busca por novas referências e, naturalmente, por conhecimento. Estar inserido nesse seleto grupo e abusar da arrogância e empáfia ao discursar aos que não tiveram a oportunidade de conhecer essa esfera literária, afasta muito mais. Há uma diferença enorme entre alcançar certo nível e cativar pessoas, abrindo caminhos para que novos cheguem e alcançar certo nível e criar muros, repelindo os que podem chegar e se apropriando de um conhecimento que não lhe foi confiado para ser guardado a sete chaves, mas sim adquirido com o objetivo de aglutinar pessoas, de aumentar um círculo onde há a troca constante de conhecimento e experiência. Inclusive, nesse arremedo de apropriação indébita e egocentrismo, há uma atenuante gravíssima: a autoimposição de tantos limites e acabar se tornando obsoleto, inútil e/ou solitário.

Quando o mercado te empurra suas opções, os veículos midiáticos tentam programar suas zonas de influência, o sistema educacional inibe e repele o cultivo de um aperfeiçoamento pessoal e social e os meios de massa são amplamente tendenciosos, deveria ser algo natural que nós tentássemos criar essas aberturas para o crescimento do próximo. Dialogar com quem não conhece é, na minha humilde opinião, muito mais difícil do que dialogar com um catedrático. Cativar essa pessoa leiga é uma missão que requer talento, empatia, paciência e outros tantos valores que compõem a nobreza de espírito. Mas é através disso que vejo algumas mudanças visíveis nesse cenário hoje em dia.

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