Toine Heijmans – No Mar

Por Caio Lima

Uma das questões que eu mais destaco aqui (e que não permeiam o mundo literário) é a nossa tão querida rotina. Claro que a manifestação de algumas rotinas faz muito bem, principalmente quando aliado a isso está o hábito da leitura. Algumas são excelentes para o desenvolvimento e boa manutenção tanto do corpo quanto da alma. Mas a rotina a qual me refiro é aquele conjunto de ações que são indiferentes por serem completamente inúteis ou aquelas ações que praticamos por livre e espontânea pressão, nos sendo extremamente desagradáveis, e que o tempo faz o favor de transformar em algo corriqueiro.

Um dos grandes males do século é que para sobreviver necessitamos cada vez mais de cair na rotina e isso nos apaga. Ronald é um cara apagado pela rotina. Aos quarenta anos, é um funcionário de carreira exemplar, tem uma bela esposa e uma linda filha. Existe a insatisfação por ver funcionários mais novos conseguirem promoções, mesmo quando não se dedicam tanto quanto ele e sendo bem mais jovens e inexperientes. Assim ele se desgarra do trabalho, passa mais tempo em casa cuidando da filha e se dedicando à tarefa nada fácil de ser um bom pai. Mas mesmo assim nada adianta, sua decisão tardia abriu espaço para que a rotina o apagasse e criasse uma mente sempre insatisfeita, mas conformada.

“Se não fizer como combinado, eles arrastam meu barco para dentro. De volta às pessoas e suas coisas. Um barco pode zarpar, mas no fim tem que retornar a um porto. O mundo é assim. Os únicos barcos que permanecem no mar são os que naufragaram.”

11 - Toine Heijmans - No Mar (17-06-2016)Ao receber uma licença de três meses da empresa, Ronald opta por realizar um de seus maiores sonhos: velejar, sozinho, por toda Europa enquanto sua licença durasse. É uma tentativa de se reencontrar, pois os sonhos e desejos continuam ali apesar da rotina nos engolir. Sua esposa vê como uma última tentativa de resgate.

Nesse processo de resgate interior, Ronald percebe que seu mundo gira em torno da família. Seu objetivo é cumprir sua viagem e reencontrar sua esposa e filha. Ele as queria junto dele. Ele queria levar sua filha e ensina-la a velejar, ensina-la os segredos do mar.

É aí que, para mim, o livro se monta. A questão de redescobrir sua identidade, esquecer os problemas por três meses e estar sozinho, completamente livre, navegando meio que transformaram todas as suas ausências numa prisão, junto à exaustão física e mental causadas naturalmente por uma viagem dessas. Ele se obriga a novas rotinas, fazendo registros e observações das condições do mar e da embarcação de hora em hora e outras múltiplas tarefas que o prendam. Isso faz com que ele acredite que esse “caos controlado” é a volta de sua vitalidade. Mas basta um erro causado por um cochilo não programado para que ele, já completamente instável, veja sua rotina quebrada e há o extremo de sua insanidade.

Ronald é um retrato de como nossos hábitos e ações levam a uma rotina doentia e não consegue se emancipar disso de jeito maneira. Qualquer fato que atenue seus desejos de se libertar dessa vida cíclica, acaba desestabilizando-o brutalmente. Mesmo quando a própria psique o sabota e seu corpo o obriga, a quebra da rotina se torna uma transgressão mortal, suplantando preocupações primárias como sua saúde ou satisfação. Ronald é um escravo do próprio modo de vida que escolheu. É triste ler sobre alguém com quarenta anos sendo subjugado dessa forma. Eu tenho pena dos Ronalds que conheço. Eu tento não me tornar um Ronald.

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