Raduan Nassar – Um Copo de Cólera

Raduan Nassar é um daqueles fenômenos que só a literatura é capaz de explicar. Tendo toda sua obra resumida a três livros, ele ganhou recentemente o Prêmio Camões 2016, premiação de maior importância para autores da língua portuguesa e é apenas o décimo segundo brasileiro a ganhar essa honraria. Minha primeira experiência com Nassar foi com o tão aclamado Um Copo de Cólera.

Quando eu peguei Um Copo de Cólera para ler, logo pensei “esse aqui vai levar uma tarde”. Ledo engano. Uma tarde foi pouco, muito pouco. Não que Nassar tenha escrito com extrema precisão técnica (Lavoura Arcaica tá aí pra isso), mas existe um conjunto de fatores que fazem com que Um Copo de Cólera tenha exercido esse poder de fixação sobre minha pessoa.

copo-de-coleraLogo nas primeiras dez páginas há uma intensidade arrebatadora. A escrita é simples para justamente deixar o enredo fluir com a força que deve ser. Eu li cada linha vidrado, tentando captar a intenção de cada palavra. Não adianta fugir, Nassar faz isso naturalmente da mesma forma que a gravidade nos prende aqui. São quase noventa páginas retratando uma noite e a manhã após de um casal. A relação dos dois se dá à flor da pele. Na noite há o amor em toda sua volúpia, na manhã às vias de fato após uma discussão. Retratar em um período tão curto de tempo como são excêntricos e soberbos todos os sentimentos e fatores que giram em torno de um relacionamento é algo de extrema sensibilidade e habilidade descritiva.

Os parágrafos que perduram por páginas e marcam os “capítulos” do livro são desafiadores. Te exigem fôlego ao mesmo tempo que te prendem. É uma escalada sem paradas. Um mergulho em apneia, testando nossa capacidade pulmonar ao extremo. Um Copo de Cólera é um teste de resistência de noventa páginas equilibradas por extremos.

É um belo tapa na cara quando, após completamente envolvido na leitura, Nassar vai explorando nossa ingenuidade. A cada momento que ele coloca essas camadas de intensidade extrema, ele joga com as personagens. Como se fossem atores, eles se travestem com uma nova face, formando um novo casal. É um jogo perturbador que nos faz refletir o quão suscetível somos ao cair nessa mesma roda de papeis interpretados em busca de alguma coisa que falta num relacionamento. Ou sendo mais amplo, na própria vida. O quão atores somos capazes de ser? E como faz quando as máscaras caem?

Isso reflete muito o momento que o Brasil vivia. O livro foi escrito em 1970 e lançado em 1978, época da ditadura militar que, após o milagre econômico, começava a mergulhar na crise. Os excessos do casal refletem muito bem o amor bandido, promíscuo e incontrolável que existia na época (existe até hoje, na verdade) por ideais de países diferentes que não tem absolutamente nada de semelhante com o que é o Brasil de fato, em suas origens.

Apesar de sermos um baile de carnaval veneziano, o baile sempre acaba e temos que tirar as máscaras. Isso desnuda nossa identidade. E é difícil lidar com o que realmente somos, ainda mais quando nos acostumamos às máscaras. Em anos, em meses ou em horas, é indiferente. Da mesma forma que o casal do livro, tomamos rumos distintos. Mas sempre dispostos a voltar ao lugar comum.

P.S.: O FILME É UMA MERDA!

2 comentários em “Raduan Nassar – Um Copo de Cólera

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