Marion Zimmer Bradley – As Brumas de Avalon

Por Caio Lima

Desenvolver um enredo que passa pela construção de um ideal dentro de um contexto que caiba uma lenda como é Artur e a exposição de argumentos histórico-geográfico-culturais (ficou bonito isso), nos deixam apenas duas opções: o fracasso total ou um sucesso absurdo.

Marion ganha muitos pontos num quesito que é mostrar o contexto da história. O início de tudo com Igraine, Gorlois e Uthred, não serviu tão somente para figurar como um prólogo da história de Artur, mas serviu também para expor de forma muito sutil tudo o que seria colocado com muito mais contundência no desenrolar do enredo. Além dos principais pontos, existem muitos outros “subpontos” que ela começa a desenvolver. Pontos como a voz ativa da mulher na sociedade, a fidelidade moral, a existência de uma esfera espiritual que não é naturalmente cultivada, a multiplicidade de religiões/seitas/credos e o respeito mútuo (deixa pra lá…) entre elas, em como as relações entre destino e vontade própria são altamente sutis, o entendimento e o cumprimento do que se está destinado a fazer, os limites do amor, entre outros, ficam ali implícitos esperando a hora de serem jogados no decorrer do livro.

“… é que não existe história totalmente verdadeira. A verdade tem muitas faces e assemelha-se à velha estrada que conduz a Avalon: o lugar para onde o caminho nos levará depende da nossa própria vontade de nossos pensamentos.”

Marion cria um enredo extremamente rico e dinâmico para uma história movida basicamente por jogos de poder sutis. Ela mostra a alternância de cada um em si, como indivíduo. Através dos desejos momentâneos de cada personagem, suas decisões, por mais firmes que sejam, derretem como gelo e escorrem até o ralo da alma parecendo nunca ter habitado aquele espaço. E realmente somos desta forma! Além da nossa própria personalidade, a construção da sociedade e as restrições a que somos submetidos são determinantes para qualquer desejo nosso. Marion é capaz de deixar isso muito evidente com Morgana, que demorou a tomar nota disso pela decepção que teve com Viviane. E traça paralelos, quando Viviane respeitou o desejo da Deusa e, mesmo sabendo que se tratava de irmãos, deixou que o ato nas fogueiras de Beltane fosse consumado por Artur e Morgana.

E tudo que tange a desejo e abdicação dependem de como você é fiel à pessoa que você está ligada ou ao objetivo o qual acredita. Guinevere é fiel ao catolicismo ao exigir que Artur fosse convertido ao cristianismo, o obrigando usando de toda a chantagem emocional possível. Mas, quando o assunto é Lancelote… sua fidelidade ao que prega cai por terra. Artur manteve-se fiel a seu povo sendo um rei justo e nobre, conseguindo a tão desejada paz para a Bretanha e uma época de prosperidade, mas não foi fiel à Avalon conforme havia jurado. Lancelote virou produto de seus desejos: o desejo de servir a Artur, seu melhor amigo, e o desejo por Guinevere. São direções paralelas, e a acidez que é permanecer na dúvida o jogou num limbo.

Após desenhar os personagens e construir esses “subpontos”, ela decide voltar para o centro da teia que foi capaz de tecer com uma força impressionante. Ela consegue fazer transparecer na escrita a ambição de cada envolvido nessa disputa pelo poder da Bretanha. Assim faz parecer que todas aquelas agruras e angustias só poderiam culminar numa ambição cruel e desenfreada. Todos assumem sua culpa no cartório. É incrível como parece que as brumas caíram sob os olhos de todos e as ações começaram a ficar mais fortes e mais duras. Alguns conceitos tão aflorados antes só apareceram em pequenos traços, como a compaixão e a empatia.

06 - Marion Zimmer Bradley - As Brumas de AvalonCriar uma dependência forçada, estabelecer uma relação de doutrinação conscienciosa. Isso é tão grave que deveria ser crime! Essa é uma faceta nossa como seres humanos e é extremamente difícil desconstruir isso. E no fim, é esse apego aos ideais e essa doutrinação espontânea que vão levando as definições do quarto livro. É o que carrega Morgana, Artur, Lancelote, Guinevere, Morgause, Niniane, Mordred e todos os outros. É o que tentam fazer conosco todo tempo. É o que tentamos replicar para com os outros, de forma inconsciente até. Subjugar e doutrinar. Quantas vezes Morgana ou Guinevere ignoram uma a outra? Como Lancelote, no seu eterno limbo, consegue tratar tão mal sua esposa Eliane? Como Morgana, apesar de reconhecer a bondade de Uriens, lhe retribui com uma gentileza ensaiada e com toda a desfaçatez que há nela? Dizem que as guerras, principalmente as internas, nos endurecem de forma fugaz como têmpera no aço. E é isso que a Marion mostra: você é capaz de ser cruel, de trair, de pisotear sentimentos, de jogar e de matar, até. Ódio, rancor, vingança. É um samba de uma nota só, triste e pesado.

Ao longo dos livros me ficou uma impressão de que tudo que desde o começo foi planejado pela Viviane lá quando planejou casar Igraine com Uthred a qualquer custo dando início ao futuro reinado de Artur como Grande-Rei da Bretanha. Foi algo além de uma missão de resgate à força da Deusa naquela terra. Havia uma aura que circundava todas as decisões tomadas desde então, algo implícito e perdido nas brumas. Algo que vai além da força, do poder, da religiosidade, da devoção e do cumprimento de uma missão. Envolve pureza. Pode parecer estranho, mas foi a minha percepção. E, vendo o desenvolvimento de cada figura no livro, de Viviane até Mordred, fica esse mesmo sentimento de que havia sempre algo subjetivado. Fosse o amor, fosse à Deusa, fosse ao Deus, fosse à paz ou fosse o poder.

Redenção! Essa é a palavra! Como corrigir todos os meus erros? E forçamos respostas para todos os erros que cometemos. Respondemos tudo prontamente, com a melhor das intenções. Afinal, a redenção tem que ser ação imediata, da mesma forma que os erros foram. Notam-se os efeitos aparentes, mas é um baita cobertor curto. Você impõe sua redenção, da mesma forma que impôs seus erros. Doutrinamos nossa bondade também. Os acertos são muito mais eloquentes que os erros na hora de subjugar e doutrinar. E novamente somos reféns das nossas vilanias bem intencionadas.

É um ciclo. Esse foi o ciclo que Morgana teve ao longo dos quatro livros inúmeras vezes. Esse é o retrato do reinado de Artur. É a descrição literal do limbo de Lancelote. É o espelho da ambição desenfreada de Mordred. Esse é o principal motivo de Viviane ter se tornado uma das grandes personagens de todos os tempos para mim. Ela foi assassinada e se foi de forma cruel, mas é perceptível que havia pureza nos seus ideais e na sua luta. Ela obteve sua redenção. É o que aparece dos quatro livros após dissipar toda a névoa. Somos o que somos e, por isso, somos capazes de cumprir os desafios a que nos propomos à nossa maneira, num tempo indeterminado por nós. Do tempo e do que está escrito, cuida o destino. Mas, apesar de inexorável, ele nos dá a dádiva de nos procurarmos a todo o momento. É só ali que cumprimos nossa missão.

“Avalon estará sempre ali para todos os que puderem buscar o caminho, por todos os séculos e além dos séculos. Se não puderem encontrar o caminho de Avalon, isso talvez seja um sinal de que não está pronto pra isso. “

Enquanto isso o Desafio Livrada! 2016 segue assim:

1 – Um prêmio Nobel: A Montanha Mágica – Thomas Mann
2 – Um livro russo: O Idiota – Fiódor Dostoiévski
3 – Um cânone da literatura ocidental: Fausto – Johan Wolfgang Goethe
4 – Uma novela: Em Má Companhia/O Músico Cego – Vladímir Korolenko
5 – Um livro que você não sabe por que tem: O Último Trem de Hiroshima – Charles Pellegrino
6 – Um autor do seu estado: Macunaíma – Mário de Andrade
7 – Um livro publicado por uma editora independente: Holocausto Brasileiro – Daniela Arbex
8 – Uma ficção histórica: Viva o Povo Brasileiro – João Ubaldo Ribeiro
9 – Um livro maluco: Inferno – August Strindberg
10 – Um livro que todo mundo já leu menos você: As Brumas de Avalon – Marion Zimmer Bradley
11 – Um autor elogiado por um escritor de quem você gosta: Mary Shelley – Frankenstein
12 – Um livro bobo: O Visconde Partido ao Meio – Ítalo Calvino
13 – Um romance de formação: O Apanhador no Campo de Centeio – J. D. Salinger
14 – Um livro esgotado: Lucien Leuwen – Stendhal
15 – Livro obrigatório: As Aventuras do Bom Soldado Svejk – Jaroslav Hasek

Seguimos na sombra.

2 comentários em “Marion Zimmer Bradley – As Brumas de Avalon

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