João Ubaldo Ribeiro – Viva o Povo Brasileiro

Por Caio Lima

Literatura nacional nunca foi meu forte. É até engraçado, porque eu sempre tive algum contato, principalmente na época pavorosa dos vestibulares. Várias bancas, cada uma com uma lista de livros diferente e lá vai Caio tentar ler aquilo tudo. Claro que eu coloquei os mais curtinhos como prioridade. Quando eu vi o absurdo de colocarem um livro de quase 700 páginas numa dessas listas, mas é claro (muita ênfase nesse claro) que eu nem toquei no livro. E assim os anos correram e eis que agora, sem leituras obrigatórias, esse calhamaço me aparece novamente. O momento não poderia ser mais oportuno.

Capa_Viva o povo brasileiro - Edicao especial.inddViva o Povo Brasileiro é um grande romance de formação sobre o Brasil. Do Brasil colônia até a ditadura (o livro foi lançado em 1984), o livro traça do nascimento das raízes do país até o século XX, revelando um estágio de maturidade que nunca foi atingido.

É complicado falar sobre as personagens do livro pelo fato de encontrarmos essas personagens todos os dias na rua. O Brasil não mudou tanto assim do século XVI para cá. Não mesmo. Somos um padrão completamente arcaico de sociedade, justamente por não reconhecermos a nossa formação. Nossa evolução como sociedade acontece a passos vagarosos. Passos esses que só são dados após muita luta, mas que logo retrocedem pela falta de vontade e paciência de um povo criado para ser arcaico, conservador e fechado. E, nessa missão de elucidar o que deveria ser óbvio, Viva o Povo Brasileiro é simplesmente fenomenal.

Quem foi incumbido de colonizar o país, continua colonizando. Quem foi escolhido para ser colonizado, continua tomando na cabeça. Os reguladores entre ‘quem manda’ e ‘quem obedece’ também mantém um padrão bem identificável. Em todos os diferentes estágios dos quase 500 anos de Brasil retratados no livro, muitas coisas mudaram, mas os valores sociais sempre foram mantidos.

“Sabe como é a baleia que se apelida toadeira? É o mais valente ser vivente existente, que recebe pelo flanco as arpoadas, que se vê cercado dos inimigos mais mortais que qualquer bicho pode ter, que vê o mar virado num espinheiro fatal e então, levantando o dorso como um cavalo de nobreza, sacudindo a cabeça como um combatente que não se rende, não dá ousadia de bufar, não dá ousadia de gemer, mas segura o ardor de tantos dardos lhe mordendo as costas, manda que seu sangue lhe seja fiel naquela hora e, com um arranco a que nada na Terra pode resistir, estraçalha o que estiver à frente e leva barco, leva gente, leva corda, leva tudo, num carreirão de espuma e água pelos sete mares, vencendo assim quem quer que pensa que é vencido aquele que vencido não vai ser, pela força do orgulho e da resistência.”

Ao atribuir o valor social, histórico e cultural de todos os povos que formaram o Povo Brasileiro, numa Bahia que resume toda a miscigenação que nos identifica, durante todo o livro é bem latente como foram suprimidos e marginalizados a cultura e costumes dos colonizados, escravizados e servidores. Mas essa marginalização não é fruto, simplesmente, da relação entre dominado e dominante (explica muita coisa, mas não é só), existe algo bastante arraigado no inconsciente coletivo que normaliza, relativiza e apazigua algumas atitudes antissemitas, até. Um povo tão mestiço, tão plural e tão criativo não deveria ser refém de certos pensamentos que são elaborados e ratificados por fundamentações tão desumanas e de ideologia tão rasteira. É usar o povo como agente regulador do próprio povo.

Tenho que ressaltar a parte dos orixás na Guerra do Paraguai. Mas que sequência magnífica! Admito conhecer muito pouco das religiões e cultura africanas, mas após isso é basicamente impossível não ir buscar mais referências. É deslumbrante, envolvente e de uma escrita soberba!

Os pulos temporais durante todo o livro, de um século para outro a todo o momento, continuam a explicitar a questão de que o Povo Brasileiro, mesmo com o passar dos séculos, tem suas raízes formadoras muito evidentes. Que a ordenação social, a partir de todo o processo de colonização do país, continua ali historicamente e que, apesar dos avanços e das incursões e inversão de posições de elementos desse grande agrupamento social em agrupamentos sociais antes inacessíveis, a grande massa continua estática sofrendo dos antigos males.

É uma história de gerações seculares, profunda e bonita. Tem amor, tem luta, tem injustiça, tem briga, tem guerra e tem alma. Ubaldo só precisava de um grande romance para consolidar a carreira, mas acabou escrevendo uma carteira de identidade que precisa ser lida. O povo brasileiro é plural, bonito, cheio de influências e capaz de pensar por si só, mas precisa se desfazer de muitas vendas ainda. Viva o Povo Brasileiro é um grande caminho para olharmos nossas raízes.

P.S.: Notaram que só resenhei autores que começam pela letra J? É coincidência pura e simples. Não há nada de conspiração por aqui. Nada que vocês saibam, evidentemente.

Enquanto isso o Desafio Livrada! 2016 segue assim:

1 – Um prêmio Nobel: A Montanha Mágica – Thomas Mann
2 – Um livro russo: O Idiota – Fiódor Dostoiévski
3 – Um cânone da literatura ocidental: Fausto – Johan Wolfgang Goethe
4 – Uma novela: Em Má Companhia/O Músico Cego – Vladímir Korolenko
5 – Um livro que você não sabe por que tem: O Último Trem de Hiroshima – Charles Pellegrino
6 – Um autor do seu estado: Macunaíma – Mário de Andrade
7 – Um livro publicado por uma editora independente: Holocausto Brasileiro – Daniela Arbex
8 – Uma ficção histórica: Viva o Povo Brasileiro – João Ubaldo Ribeiro
9 – Um livro maluco: Inferno – August Strindberg
10 – Um livro que todo mundo já leu menos você: As Brumas de Avalon – Marion Zimmer Bradley
11 – Um autor elogiado por um escritor de quem você gosta: Mary Shelley – Frankenstein
12 – Um livro bobo: O Visconde Partido ao Meio – Ítalo Calvino
13 – Um romance de formação: O Apanhador no Campo de Centeio – J. D. Salinger
14 – Um livro esgotado: Lucien Leuwen – Stendhal
15 – Livro obrigatório: As Aventuras do Bom Soldado Svejk – Jaroslav Hasek

Segue o baile.

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