Americanização da Literatura e Senso Crítico

Por Caio Lima

“Quando não somos inteligíveis é porque não somos inteligentes.”

Victor Hugo

As editoras injetam no mercado cada vez mais marcas literárias. No labirinto que é o mercado editorial brasileiro, muitas editoras apontam para apenas uma saída. Existe toda uma padronização midiática que só difere pelo meio em que está inserida. No caso deste texto, lembrando sempre, a inclusão da literatura nessa poderosíssima rede de entretenimento norte-americana.

Essa exploração comercial de marcas e ícones funciona como uma ode ao consumo. Há uma rápida identificação entre produto e consumidor, gerando a primeira safra de consumo. Rapidamente os acomete outra onda e consome-se muito mais, com velocidade ainda maior, outra marca. Até a criação de tantos objetos de desejo que não é possível consumir tudo e todos ao mesmo tempo, pois as condições financeiras, psicológicas e espaciais não coexistem. Desta forma a indústria do entretenimento inibe a formação de uma mentalidade crítica acerca da abrangência do valor artístico, cultural e social do que é produzido. É uma ação direta num tipo de carência intelectual que é fomentada historicamente por lideranças em busca da não formação plena da sociedade, excluindo sua noção mais básica e imprescindível, que é o senso crítico.

Obviamente ninguém nasceu lendo Guerra e Paz, do Tolstói. Mas, dentro do que observo, a massa de novos leitores é tratada como órfã de boa literatura e esse entretenimento viral veio suprir essa carência. É isso que aparenta. Essa orfandade tem ar de necessidade, ar de falta de incentivo à cultura. É um pensamento doente, torpe, degenerativo e funciona como uma epidemia. Em questão de poucos anos as estantes dos novos leitores brasileiros se renderam (quase) única e exclusivamente a marcas, em que alguns de seus produtos são livros.

Podemos chamar essa busca incessante por informações mastigadas, ruminadas, processadas e coadas de colonização cultural. Em países de terceiro mundo, com uma crise gritante de identidade (Brasil? Oi?), isso se torna uma arma extremamente eficaz no que tange à manutenção sistêmica de uma massa que esteja sempre abaixo de qualquer crítica. Evitar que haja contestação de políticas degradantes à população como um todo através dos véus do entretenimento de massas é uma das blindagens mais eficazes criadas. E se não há soberania na produção de nossa própria arte, imagine agora se há soberania sobre nossa maneira de decidir o destino político do país, por exemplo.

Essa viagem toda explicita o papel vital que a literatura sempre teve para a formação do pensar. Ao deixarmos o entretenimento sem critério ser reconhecido como algo extremamente natural, há uma identificação com uma cultura e realidade totalmente genéricas.  Cortamos uma via poderosíssima de formação do senso crítico permitindo que esses véus cubram todo o meio literário que tem por função não só o entretenimento, mas também mostrar diversos aspectos que influenciam o desenvolvimento pessoal e social. Há um reforço de ideal quanto à literatura brasileira, pelo fato do Brasil ser celeiro de autores fenomenais. Além de haver um dever de todos quanto a um melhor desenvolvimento do cenário editorial brasileiro, de fomentar autores brasileiros. Debater sobre nosso ambiente ajuda (e muito!!!) a criarmos uma identidade mais una como cidadãos.

“Odeio os livros; ensinam apenas a falar daquilo que não se sabe.”

Jean-Jacques Rousseau

Consumir (no sentido mais abjeto da palavra) literatura não é o ideal, mas já que é o principal viés do mercado editorial hoje, que saibamos aproveitar as brechas que nos são dadas. Que esses “livros-produto” sejam uma porta de entrada, e não uma razão de viver para os que se iniciam no mundo mágico e democrático da literatura. Quanto mais literatura que estimule o pensar, a arte, a criatividade e os sentimentos, melhor. O conhecimento passado em vias mais pessoais de comunicação, como os próprios blogs, são de fundamental importância para incentivar a busca por novas referências e novos caminhos. Esse é meu objetivo com este espaço, da mesma forma que fui inspirado por muitos da mesma maneira.

P.S.: Para maiores dados sobre o mercado editorial do Brasil é recomendada a leitura da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Pró-Livro, com última edição lançada agora, em 2016. Aproveitem enquanto o café tá fresco, meu povo.

2 comentários em “Americanização da Literatura e Senso Crítico

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  1. Fala Caio, vou passar um rodo aqui no seu site e fazer comentários nos últimos textos que você postou, a começar por esse aqui porque o meu toc me faz ler os textos mais antigos primeiro. Sobre esse texto, eu achei ele bem parecido com o seu primeiro (até o nome é parecido) só que voltado para o senso critico. E o negocio é o seguinte: eu concordo e ao mesmo tempo não concordo. E não estou falando de pontos diferentes, e sim do mesmo ponto. Eu acho que sim, as pessoas deviam ler coisas mais interessantes do que as marcas exportadas dos Estados Unidos, mas ao mesmo tempo acho que falar o que as pessoas deviam ou não fazer tira a aura de democratização que o senhor comentou no final desse post. É uma incapacidade da minha cabeça entender porque alguém não iria querer livros mais interessantes para ler do que as series formatadas existentes no mercado de hoje, em que a diferença de uma para outra está apenas na roupagem, mas eu não tenho como impedir que essa pessoa consuma essa literatura, muito pelo contrario, geralmente dizendo que esses livros são apenas um entretenimento e vale muito mais apenas ler a “boa” literatura por um milhão de motivos, ela vai apenas me chamar de babaca ou idiota e vai é continuar lendo essas coisas, e a quem diga que ela está muito certa, mesmo dizendo que quer se casar com um personagem machista e controlador (o famoso Grey). Por isso que eu acho muito mais compensador falar bem de ótimos livros de um jeito mais acessível no meu blog do que compara-los a livros de índole duvidosa, por mais que eu concorde com o seu post, é algo que eu nunca falaria para ninguém entende? É uma questão de se adaptar as regras do jogo apenas.

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    1. Fala, Victor. Agradeço a atenção e o esquadrinhamento do blog. hahahaha
      Eu entendo teu ponto de vista, até por concordarmos bastante.
      Mas acho que a discussão cai num paradoxo também, e daí saem as abordagens diferentes.
      Eu acho que consigo entender o porquê das pessoas preferirem ler essas obras enlatadas à boa literatura, e isso me causa certa revolta. E ao comentar sobre, acaba soando algo imperativo. Eu não vou queimar livros (apesar da vontade hahahaha) e nem submeter às pessoas a um julgamento pela qualidade do que leem.
      As razões de ser do mercado editorial e em como esse ciclo todo procede me causam um tremendo desconforto. É uma ferida que eu considero aberta e levantar a discussão é um dos meus objetivos, então eu vou sempre tocar nessa ferida. Ao passo que apresento obras de boa literatura por aqui nas resenhas e tentando fazer isso da forma mais acessível que eu consigo, não consigo deixar de expor minha opinião acerca desse assunto no geral.
      É um traço da minha personalidade, mas espero ter conseguido explicar de forma mais clara nos outros posts que o meu objetivo é incluir, ter paciência, ser maleável e estimular boa literatura.

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