Julio Cortázar – O Perseguidor

Por Caio Lima

Somos criados de forma a possuir um teto evolutivo. Sempre usamos parâmetros, estabelecemos metas, fazemos comparativos a troco de conhecermos nossos limites. Desde crianças ouvimos dos nossos pais, professores e do meio que o certo é definirmos uma meta até consegui-la. Escolher um caminho, traçar a meta e só descansar quando chegar lá. Quando chegamos é consenso geral de que fomos consagrados, que poderemos olhar para trás e nos sentir realizados. Mas e quando os limites são cada vez mais fáceis de serem alcançados? Quando os tetos são cada vez menores em vista do talento, da capacidade?

Bruno, o narrador, conta muito bem como a genialidade transcende esses conceitos ao relatar a vida do grande jazzista Johnny Carter. Autor de uma biografia minuciosa sobre o artista, ídolo e amigo, Bruno passa o conto todo colocando sua própria biografia à prova. Na verdade a biografia não é tão exata assim. Johnny é famoso porque teve sua genialidade reconhecida, mas é pobre, depressivo e viciado.

Sempre permutando entre a visão do ídolo (e amigo) e do artista, a história é narrada em altos e baixos. Toda a depressão da vida do jazzista consagrado é rapidamente cortada com o encantamento que toca a todos quando Johnny começa a praticar o jazz. Essa sensibilidade de Bruno mostra que Johnny é um gênio fracassado, mas ainda um gênio.

“(…) invejo Johnny, esse Johnny do outro lado, sem que ninguém saiba exatamente o que é esse outro lado. Invejo tudo menos a sua dor, coisa que ninguém deixará de compreender, mas mesmo em sua dor deve haver o vislumbre de algo que me é negado. Invejo Johnny e ao mesmo tempo me dá raiva que esteja se destruindo pelo mau emprego dos seus dons, pela estúpida acumulação de insensatez que a pressão da sua vida requer.”

Johnny,03 - Julio Cortázar - O Perseguidor quando toca, não vê limites. Não existe teto para sua genialidade. Ele busca explorar os territórios que não conhece. Quando volta ao mundo real, ele se depara com todos os tetos que lhe são impostos e não suporta a pressão. Sua autodestruição é um protesto que ninguém é capaz de reconhecer. Seu aprisionamento é um poço do qual ele não é capaz de sair. Por isso seus vícios, rebeldia, depressão e miséria gritam tão alto. Há um Johnny além do que se pode ver, alheio aos julgamentos em que é réu todos os dias da sua vida. Bruno, ao narrar tudo isso, foi o que chegou mais perto, mas ainda assim, os sentimentos se misturam durante todas as páginas.

Como no mais puro jazz, o livro segue sua trajetória de menos de 100 páginas nos envolvendo em excessos e improvisos. Cortázar improvisou ao se chamar de Bruno para relatar a vida de Charlie Parker, nosso Johnny. Sim, esse conto é uma homenagem e, com um enredo tão denso, facilmente se desenrolaria num romance. Mas Cortázar foi sábio ao manter assim. O jazz não permite falta de intensidade, não permite falta de inventividade e não permite de forma alguma, falta de gênio. Gênio em todos os sentidos da palavra.

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