Desafio Livrada! 2016 + Jaroslav Hasek – As Aventuras do Bom Soldado Svejk

Por Caio Lima

Antes da primeira resenha do blog, vim expor a minha seleção para o Desafio Livrada! 2016, do blog Livrada!.A grande graça do desafio é ser dividido em 15 categorias com apenas um livro obrigatório e não precisar ler tudo na ordem, ajudando a pesquisa de novos títulos, escolas literárias e afins. Além de ser flexível com quem participa ao permitir que adapte títulos de sua própria estante que, talvez, ficassem para depois. Já li boa parte dos que selecionei para o desafio, mas caso alguém se interesse, essas são minhas escolhas (e a garantia de 15 resenhas aqui hahaha):

1 – Um prêmio Nobel: A Montanha Mágica – Thomas Mann

2 – Um livro russo: O Idiota – Fiódor Dostoiévski

3 – Um cânone da literatura ocidental: Fausto – Johan Wolfgang Goethe

4 – Uma novela: Em Má Companhia/O Músico Cego – Vladímir Korolenko

5 – Um livro que você não sabe por que tem: O Último Trem de Hiroshima – Charles Pellegrino

6 – Um autor do seu estado: Macunaíma – Mário de Andrade

7 – Um livro publicado por uma editora independente: Holocausto Brasileiro – Daniela Arbex

8 – Uma ficção histórica: Viva o Povo Brasileiro – João Ubaldo Ribeiro

9 – Um livro maluco: Inferno – August Strindberg

10 – Um livro que todo mundo já leu menos você: As Brumas de Avalon – Marion Zimmer Bradley

11 – Um autor elogiado por um escritor de quem você gosta: Mary Shelley – Frankenstein

12 – Um livro bobo: O Visconde Partido ao Meio – Ítalo Calvino

13 – Um romance de formação: O Apanhador no Campo de Centeio – J. D. Salinger

14 – Um livro esgotado: Lucien Leuwen – Stendhal

15 – Livro obrigatório: As Aventuras do Bom Soldado Svejk – Jaroslav Hasek

Aproveitando o ensejo, a primeira resenha do blog será do livro obrigatório do Desafio Livrada! 2016, As Aventuras do Bom Soldado Svejk, escrito por Jaroslav Hasek e que estava parado aqui na minha estante.

Mas antes, sendo estreia (mais fogos [ano novo chinês] e chuva de papel picado [os boletos já estavam vencidos mesmo]), explicito que minhas “resenhas” são apenas pontos que observei durante a leitura e resolvi destacar aqui. Não tem sinopse e ficha técnica com o peso do livro depois de juntar poeira por cinco anos na estante da livraria. Grato desde já.

Agora vamos ao que interessa.


“que tendo há anos abandonado o serviço militar, depois de definitivamente ser declarado idiota pela junta médica militar, ganhava o seu sustento com a venda de cães, feios monstros de sangue impuro, aos quais ele falsificava as árvores genealógicas”

02 - Desafio Livrada! 2016 + As Aventuras do Bom Soldado Svejk.jpgAo me deparar com o bom soldado Svejk eu fiquei muito relutante quanto ao atestado de idiota que lhe foi conferido pelo exército tcheco. Suas “aventuras” são fruto das maiores confusões que só uma mente completamente desprovida de bom senso poderia causar. Sua salvação sempre vem de uma esperteza extrema e de uma sorte que só acompanha os muito competentes. Vai entender. Mas é assim, após ser preso (são incontáveis vezes durante o livro) pelo seu esquema de fraudulência canina e voltar para o exército através do capelão do batalhão, que Svejk age durante todo o livro.

Durante seu percurso hilário com inúmeras sátiras sociais, mãozadas de humor negro e pastelão, Svejk lança um olhar muito sutil para as mazelas da Primeira Guerra em seus bastidores, antes do massacre. Existe um pré-guerra tenebroso e cruel, talvez mais cruel que a própria luta. Logo na fila de exames, tchecos loucos por escapar da guerra iminente pagam para injetar parafina em seus membros, mesmo sabendo que isso poderia custar suas vidas. Os que passam são transportados como gado, amontoados em vagões, com comida extremamente racionada, sendo obrigados a usar restos de agasalhos para se aquecer (requerer um novo uniforme no exército tcheco era quase impossível), tendo que ocupar lugares piores que os dos cavalos dos comandantes e subordinados a oficiais desumanos, imorais e mais cruéis que a própria guerra. Deflagra com ternura, e até inocência, um sistema de organização arcaico e comandado por homens sem capacidade para tal numa guerra sem motivo. Principalmente para os tchecos.

“Para o senhor general tudo era simples. O caminho para a glória bélica repousava nesta receita: As seis os soldados recebem gulache com batatas, às oito e meia fazem cocô nas latrinas e às nove se retiram para dormir. Diante de um exército como este, o inimigo foge assustado.”

Hasek, com toda sua biografia extravagante e ensandecida, impôs à sua narrativa um tom tão natural que choca. Choca ao ver que passamos pelos horrores da guerra rindo de Svejk. Choca ao confiar a um personagem tão caricato a tarefa de mostrar um cenário tão degradante. Choca ao mostrar que o extremo da guerra aparece antes da guerra em si. E o que choca mais é o fato de acontecerem absurdos tão exuberantes que eu não percebi por muitas vezes o tom sempre irônico da narrativa.

Svejk é malandrão no aperto, bobo quando não deve, mas é bom sempre. Não vê maldade, não vê malícia e, muito menos, problemas. Passa por tudo e todos com a mesma cara inchada ou por ser rechonchudo ou um bêbado inveterado. Nunca chegou a ir pra guerra, mesmo com as quase 700 páginas do livro inacabado. Mas foi capaz de tornar divertido um ambiente podre. Tal qual uma criança, Svejk tem na pureza a explicação da sua bondade. Isso não o impede de cometer pequenas transgressões, de mentir e dissimular, mas os pequenos erros não podem ser simples maldade. Talvez só evidencie o lado bom de ser bom.

 “Se me pedissem que apontasse três obras literárias deste século que, em minha opinião, farão parte da literatura universal, diria que uma delas é, sem dúvida, “As aventuras do bom soldado Svejk”.

Bertold Brecht

P.S.: E é bom lembrar que nunca se deve confiar num húngaro.

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