Americanização da Literatura

Por Caio Lima

“(…) um público comprometido com a leitura é crítico, rebelde, inquieto, pouco manipulável e não crê em lemas que alguns fazem passar por ideias (…)”.

Mario Vargas Llosa

A virada do milênio, além de ter possibilitado nossa terna continuidade neste planeta achatado nos polos (já que o mundo não acabou em 2000), veio carregada de uma nova era para o entretenimento de massas. Há uma profusão de sagas em longas-metragens e séries com intermináveis temporadas fidelizando cada vez mais admiradores e demarcando no mercado marcas criadas para explorar uma complexa rede. E com o passar da primeira década o volume de séries aumentou a cada virada de estação. Antes de acabar a temporada de uma, já estão sendo anunciadas as premières de três ou quatro novas séries que você, como imposição, precisa acompanhar.

Repare bem que todas essas séries/sagas seguem um padrão, uma estilística comercial, bem semelhantes umas às outras. Formam, hoje, a principal rede de entretenimento massivo e, com o advindo do Netflix, isso tem se expandido de forma absurda. O lastro para crescimento num curto período é vertiginoso e as previsões são extremamente otimistas para os entusiastas do mercado. Mas falando em roteiros e tramas, um ponto que é de comum acordo é: quando não são simples adaptações ou superlativos, essas séries/sagas são em parte inspiradas em livros, sejam clássicos ou contemporâneos. A indústria do entretenimento foi capaz de se utilizar do espaço literário e fazer ser consumido um produto eficazmente mastigado e de assimilação instantânea.

LEMBRANDO QUE: a questão aqui é em como a máquina do entretenimento gira, e não contestar a qualidade de obras que para mim são incontestáveis.

Partindo desse pressuposto, existe uma logística reversa, já que tudo (ou quase tudo) nesse mundo é uma via (crucis) de duas mãos. Com a simplificação do meio literário massificado pelos filmes e séries, as pessoas que consomem os livros querem, exigem, necessitam e defendem a ideia de que os livros devem ter semelhante poder de compactação, o mesmo poder “miojístico” de assimilação. Assim, o meio literário cai na mesma roda do entretenimento de massas. A emergente produção de sagas literárias, os textos amplamente descritivos e visuais e tramas roteirizadas (quase cinemáticas) focadas numa estrutura pré-moldada de escrever, garantem o sucesso de um mercado tido como emergente.

Então é gerada uma nova ordem onde a literatura é escrita para o entretenimento audiovisual e o entretenimento audiovisual é criado de forma a ser reproduzido, também, pela via literária. Vendo os autores que mais lucraram em 2015 (Tabela 1) pode-se notar que todos têm seus trabalhos traduzidos em filmes e séries de TV e esses trabalhos se enquadram nas obras que mais arrecadaram nos dois meios. Existe uma tendência que presta mais e mais atenção no estímulo dessa correlação entre os meios de entretenimento para fidelizar e comercializar marcas e doutrinar a distribuição de entretenimento mundial.

Autor

Lucro no Ano de 2015

País de Origem Principais Obras
James Patterson US$ 89 milhões EUA Trilogia Bruxos e Bruxas; Romances policiais
John Green US$ 26 milhões EUA A Culpa é das Estrelas; Cidades de Papel
Veronica Roth US$ 25 milhões EUA Trilogia Divergente
Danielle Steel US$ 25 milhões EUA Um Longo Caminho para Casa; Cinco Dias em Paris
Jeff Kinney US$ 23 milhões EUA O Diário de um Banana
Janet Evanovich US$ 21 milhões EUA Saga Stephanie Plum
J. K. Rowling US$ 19 milhões Reino Unido Saga Harry Potter
Stephen King US$ 19 milhões EUA O Iluminado; It – A Coisa; Sob a Redoma
Nora Roberts US$ 18 milhões EUA Série Mortal; Trilogia O Círculo
10º John Grisham US$ 14 milhões EUA Tempo de Matar; O Júri; A Confissão
11º Dan Brown US$ 13 milhões EUA O Código da Vinci; Inferno; Ponto de Impacto
Gillian Flynn US$ 13 milhões EUA Garota Exemplar; Lugares Escuros
Rick Riordan US$ 13 milhões EUA Série Percy Jackson; Série de Apolo
Suzanne Collins US$ 13 milhões EUA Trilogia Jogos Vorazes
15º E. L. James US$ 12 milhões Reino Unido Trilogia 50 Tons de Cinza
George R. R. Martin US$ 12 milhões EUA Série As Crônicas de Gelo e Fogo

Tabela 1: Autores que mais arrecadaram em 2015, segundo matéria da Forbes.

Mas o que é consumir literatura? Quais tipos de obras entram no país de forma massiva? O que isso tudo tem a ver com a formação dos novos leitores brasileiros?

Os diversos segmentos de entretenimento emergentes são todos baseados no mercado e nos moldes do entretenimento norte-americano. As portas, hoje, estão escancaradas para qualquer produto que nos entretenha produzido por eles ou nos seus padrões. Isso influencia absurdamente o mercado editorial do país. Fez-se um ciclo em que o consumo de um produto se dá por todas as vias possíveis: filmes, séries, artigos diversos, jogos e, finalmente, os livros.

Com um mercado reduzido ao longo da história, as editoras brasileiras viram nessa indústria emergente de entretenimento a oportunidade de angariar recursos para se estabilizar no mercado (Tabela 2). É difícil culpa-las, afinal, tudo se resume em negócios, em cifras. A responsabilidade do que é lido é de quem lê… É? Não necessariamente.

Título Autor Número de Exemplares Vendidos Nacionalidade Editora
Grey E. L. James 174.796 Reino Unido Intrínseca
Se Eu Ficar Gayle Forman 100.757 EUA Novo Conceito
Cidades de Papel John Green 94.771 EUA Intrínseca
Toda Luz que Não Podemos Ver Anthony Doerr 71.954 EUA Intrínseca
Para Onde Ela Foi Gayle Forman 65.371 EUA Novo Conceito
Cinquenta Tons de Cinza E. L. James 43.096 Reino Unido Intrínseca
A Garota no Trem Paula Hawkins 42.023 Zimbábue Record
Simplesmente Acontece Cecelia Ahern 40.216 Irlanda Novo Conceito
Cinquenta Tons Mais Escuros E. L. James 36.443 Reino Unido Intrínseca
10º Como Eu Era Antes de Você Jojo Moyes 34.033 Reino Unido Intrínseca
11º Número Zero Umberto Eco 31.878 Itália Record
12º A Garota na Teia de Aranha David Lagercrantz 28.634 Suécia Companhia das Letras
13º Guerra Civil Stuart Moore 27.229 EUA Novo Século
14º Cinquenta Tons de Liberdade E. L. James 26.299 Reino Unido Intrínseca
15º Somente Sua Silvia Day 19.713 EUA Paralela
16º As Espiãs do Dia D Ken Follett 19.250 Reino Unido Arqueiro
17º A Guerra dos Tronos George R. R. Martin 18.388 EUA LeYa
18º O Irmão Alemão Chico Buarque 17.853 Brasil Companhia das Letras
19º Para Sempre Alice Lisa Genova 17.033 EUA Nova Fronteira
20º Paraíso Perdido – Filhos do Éden Volume Dois Eduardo Spohr 16.171 Brasil Verus

Tabela 2: Os 20 livros de ficção mais vendidos no Brasil em 2015, segundo contagem do Publishnews.

A questão é que estamos nos enganando quando dizemos que há um crescimento “fora da curva” de leitores. Há uma unilateralidade bem evidente no mercado editorial atual, onde o montante de vendas de autores norte-americanos (ou que elaboram suas obras com esse conceito) é clamorosamente maior que as publicações dos próprios autores brasileiros. Não que não existam autores de best-sellers lendários, mas há de se reparar que a grande maioria das obras são provenientes desse modelo “livro-produto” com marcas já consolidadas, best-sellers com uma estratégia de mercado embutida.

Alguns autores trataram de se apoderar desse fanatismo pelo consumo e desse endeusamento que o capital é capaz de proporcionar para escrever suas marcas literárias. Desta forma, fenômenos editoriais mundiais surgiram da noite para o dia, fomentados pela cultura poderosa do entretenimento de massas norte-americano.  Fenômenos estes que em menos de uma década tem lançados: uma série de televisão com 15 temporadas garantidas por contrato, uma sequência de filmes, o dia especial da marca (vulgo “título da obra literária de maior reconhecimento do século segundo o The New York Times”) e produtos e mais produtos empanturrando o mercado, de cereais ao enxoval. Vale tudo. São clássicos forjados pela força do mercado. Então o crescimento que existe hoje é de consumidores de certo produto ou marca. Os livros deixaram de ser uma via principal e independente, e se tornaram itens no meio de uma demanda gigantesca de artigos diversos criados especialmente para seguidores fieis.

E esse é o post de inauguração!!! (Fogos [as drogas chegaram] e chuva de papel picado [feita com títulos de eleitor]).  Comentem, critiquem e compartilhem, pois criar uma via de debate amplo é a intenção do canal. Alimentem a intriga!

4 comentários em “Americanização da Literatura

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  1. Fala Caio! Gostei muito do seu post, ótimo começo e espero que você se de bem no seu blog!
    Mas queria chamar a atenção para duas coisinhas: primeiro foi que em certa parte do texto, você afirma que “o meio literário cai na mesma roda do entretenimento de massas.” Essa frase me soou um pouco elitista, porque para mim literatura TEM que ser difundido para todos, principalmente aquilo que nós consideramos como alta literatura. Ela sempre parece impossível de penetrar entre as massas, mas é possível, como o próprio rank brasileiro mostra, com Umberto Eco e Chico Buarque entre os mais vendidos, e é para isso que nós temos que batalhar no nosso blog (pelo menos é o que eu faço no meu): tirar a alta literatura do pedestal supervalorizado e mostrar que ela é tão (na verdade mais) legal quanto a baixa literatura, só que mais bem feita rsrs.
    A segunda coisinha é sobre os americanos: Eu odeio tanto quanto você essa dominação da cultura, promovida pelo próprio governo dos estados unidos com a intenção de países menores, que já tem sérios problemas com a falta de valorização da cultura como o próprio brasilzão aqui, deixarem sua cultura de lado e consumir apenas a deles, e com isso se tornarem o grande modelo do mundo. Acontece que: não são todos os americanos produtores de conteúdo que são assim. Acho que o que faltou foi uma pequena nota falando isso, que existem autores la dentro que são contra o próprio sistema, como Philip Roth ou Paul Auster, que não acho que devam ser evitados só porque são americanos.
    Mesmo assim acho importantíssimo o seu artigo e estou compartilhando com todos, abraços e sucesso!

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    1. Fala, Victor.
      Então, o objetivo desse post é justamente expor um problema. Não quis questionar a qualidade de obra alguma. De 50 Tons de Cinza até O Som e a Fúria, todas tem seus pontos a serem ressaltados. Meu foco foi em como o mercado se movimenta, segundo algumas observações minhas, ao fazer essa divisão entre o que é interessante ser publicado. Por isso o tom um tanto elitista talvez. Mas a análise no texto fica bem à margem ao qualificar qualquer tipo de obra. Só evidencio a rede de entretenimento que gera tudo isso. Isso acontece com quadrinhos (Mundo Marvel e DC, só agora), com grandes obras como as do Stephen King, Tolkien e As Crônicas de Gelo e Fogo (boa parte da minha formação como leitor) e com obras mais rasas também.
      Autores como Faulkner, Franzen, DeLillo, Stephen King, Poe, Roth e outros fazem parte dos meus preferidos. São excelentes e Stephen King é um dos autores mais prolíficos e vendidos do mundo (ainda bem! hahaha). Aqui a questão é justamente apontar que o mercado permite brechas para que conheçamos esses autores magistrais, mas é difícil reconhecer essas brechas.
      Na maioria das vezes o mercado acaba induzindo, principalmente o novo leitor, a seguir numa linha sucessória de obras preferidas e essas brechas acabam sendo perdidas. Mas deixei essa explanação sobre uma maior democratização da literatura e a construção de caminhos para burlar essa massificação toda para o próximo post. Esse foi para provocar discussão e marcar o início de uma linha de posts onde exponho algumas observações e ideias minhas. Estamos juntos quanto aos objetivos nos nossos respectivos blogs. Quanto mais brechas eu puder abrir para uma literatura de qualidade, melhor. Agradeço o apoio e o comentário, muito pertinente e perspicaz.
      Grande abraço.

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